quarta-feira, 25 de março de 2026

Capítulo II – Um sacrifício de amor

No dia seguinte ao que quase terminou em briga, Bartimeu e Romualdo ainda carregavam a tensão da disputa pela atenção da bela Fiorela, a jovem galinha recém-chegada à fazenda Capim Dourado. A partir daquele momento, a sorte estava lançada. A guerra pelo coração da nobre donzela havia começado.
Nos dias que se seguiram, a cada amanhecer na fazenda, os dois galos se desdobravam em cuidados e demonstrações de gentileza para Fiorela.
_ Veja, Fiorela! Achei essas minhocas gordinhas e fresquinhas para o seu café da manhã – disse Bartimeu.
_ Hum! Obrigada, Bartimeu. Parecem deliciosas!
_ Bom dia, Fiorela – disse Romualdo – veja que água gelada e cristalina eu trouxe para você. Peguei lá no riacho. Fiz este copo com folhas, especialmente para isso.
_ Nossa, que engenhoso! Muito obrigada!
“Que galo metido!”, pensou Bartimeu. “Preciso pensar em alguma forma de impressionar a Fiorela e desbancar esse espertalhão!”. Bartimeu resolveu caminhar pela fazenda para arejar um pouco a mente, a fim de ter alguma ideia do que fazer para conquistar sua amada.
No meio do caminho, encontrou seu amigo Clemente, o cavalo. Clemente era o animal em quem Bartimeu mais confiava, pois sabia que além de ser muito leal às suas amizades, era também muito sábio e experiente.
_ Bom dia, amigo! Que bom te encontrar! Estava mesmo precisando falar com você.
_ Bom dia, Bartimeu! Tudo bem com você? Estou à sua disposição. O que você precisa?
_ Tudo bem, sim, obrigado. Bom… preciso de um daqueles seus conselhos, meu amigo! Não sei o que fazer.
_ Opa! É só me dizer. Que tipo de conselho? O que está acontecendo?
_ É.. estou um pouco constrangido em dizer… eh… assim… é um assunto meio íntimo.
_ Ora, meu querido amigo! Desde quando temos segredo entre nós? Você sabe que pode confiar em mim. Diga! O que está te preocupando?
_ Bem, vamos lá. É que eu estou perdidamente apaixonado por uma moça… a franguinha mais linda que eu já conheci. Ela se chama Fiorela. O problema é que tem outro galo também interessado nela. E ele é muito mais alto e forte do que eu. Todo trabalhado em músculos. Ele é tudo o que eu não sou. E eu estou começando a achar que ela vai se encantar por ele e vai me rejeitar, só porque eu sou um fracote. Não sei o que fazer.
_ Não diga isso, caro Bartimeu! Você pode não ser um galo marombado, mas também não é um fracote. Você está em ótima forma. É que cada um tem suas características. Todos temos nossos pontos fortes e fracos. Mas é isso que nos faz únicos e especiais. O segredo é valorizar o que você tem de bom e fortalecer as áreas em que você tem mais dificuldade.
_ É.. falando assim até parece fácil. Mas é difícil ser eu. O que eu tenho de especial? Por que razão alguém me escolheria, sendo que existem muitos galos infinitamente mais interessantes do que eu?
_ Oh, meu amigo. Sinto te informar que seu caso é grave.
_ Grave? Como assim?
_ Você foi irreversivelmente contaminado por um dos vírus mais mortais que existem.
_ Vírus? Que vírus? Como assim, Clemente?
_ É, meu querido! O vírus da paixonite aguda galopante.
_ Ah, fala sério, Clemente! Eu aqui me abrindo com você e você curtindo com a minha cara???
_ Calma, meu amigo – disse Clemente com seu largo sorriso – estou só brincando. Uma pitada de bom humor não faz mal a ninguém! Eu sei que você está falando sério. Eu também já me apaixonei. Eu sei bem como é.
Bartimeu deu um longo suspiro e abaixou a cabeça.
_ Sabe o que eu acho, Bartimeu? Eu acho que você precisa esfriar um pouco a cabeça. Precisa acalmar seu coração. Vai dar uma volta, vai pensar em outras coisas. Quando você menos esperar, a solução vai aparecer.
_ É.. acho que você tem razão. Eu preciso mesmo parar de pensar um pouco nesse assunto, senão vou enlouquecer!!! Obrigado, Clemente. Você é um bom amigo!
_ Disponha, Bartimeu! Estou aqui para o que você precisar.
Bartimeu continuou sua caminhada pela fazenda a fim de acalmar sua mente e coração.
“Já sei!”, pensou ele. “O que traz mais relaxamento do que um belo banho de cachoeira? É isso! É pra lá que eu vou!”.
Bartimeu se dirigiu alegre e saltitante para a trilha que dava para a cachoeira. “O Clemente estava certo. Só de saber que logo estarei me refrescando em águas correntes, já me sinto mais calmo e esperançoso.”
Em poucos instantes, Bartimeu se deliciava com aquele passeio. Ele pulava na água, subia nas pedras, sacudia suas penas e pulava novamente.
“Ah, isso é que é vida!” – pensou Bartimeu enquanto nadava de costas, admirando a imensidão daquele céu azul.
De repente, algo chamou sua atenção. No alto da cachoeira, em cima das pedras de onde as águas se precipitavam, Bartimeu observou algo colorido. O que seria aquilo? Será que era alguma embalagem deixada por alguém e trazida pelo vento? Será que era algum pássaro exótico e desconhecido?
Bartimeu se aproximou um pouco mais da base da cachoeira. Escalou algumas pedras na lateral do paredão de pedras e conseguiu distinguir melhor o que via. Era uma orquídea raríssima.
_ Uaaaau! – Exclamou Bartimeu – Que bela flor! Parece até uma pintura! A Fiorela ia ficar louca se estivesse aqui. Espera! É isso! E se eu fosse lá colher essa orquídea, plantar num vaso e dar de presente a ela? Tenho certeza de que ela nunca recebeu nada parecido.
Bartimeu ficou um tempo observando o paredão e traçando o melhor plano para chegar ao topo e colher sua tão desejada orquídea. Seria sua primeira vez escalando uma parede tão alta e escorregadia.
Bartimeu sabia que não seria fácil. Mas por sua amada, pensou, qualquer sacrifício valeria a pena. Movido de paixão e adrenalina, o jovem galo começou a escalada.
_ Um pouquinho para a direita…. esse pé aqui…. hum… isso vai ser mais difícil do que eu esperava. Mas, siga em frente, o resultado final é o que importa. Quero só ver a cara daquele babaca do Romualdo quando eu chegar com essa flor para a Fiorela… ele vai morrer de inveja!
Sem perceber, Bartimeu se distanciava cada vez mais da base da cachoeira, rumo ao topo. E, como não usava nenhum tipo de proteção, qualquer erro poderia ser fatal, pois como sabemos, os galos não são especialistas em voar por grandes alturas.
Conforme ele escalava escolhendo o melhor trajeto para seus pequenos pés, ele se aproximava da parede que passava por detrás da cachoeira, onde também havia uma pequena caverna escondida sob o véu das águas. Assim que ele pousou seu primeiro pé na entrada da caverna, Bartimeu soltou um grito aterrorizante:
_ Oh, naaaaaão!!!!!!!!!

Capítulo II – Um sacrifício de amor

(Continua no próximo capítulo…)

Por Bia Borges

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