terça-feira, 23 de junho de 2026

O que a amarelinha ensinava que os aplicativos não ensinam?

Quem cresceu brincando na rua provavelmente possui alguma memória da amarelinha desenhada no chão, ou do esconderijo até o pôr do sol, das partidas de queimada, intermináveis, e das brincadeiras que reuniam crianças de diferentes idades. Não havia internet, celulares ou jogos eletrônicos sofisticados. Não é mesmo? Mas… não obstante, havia outra coisa muito importante: o desenvolvimento de competências emocionais e sociais indispensáveis à vida.

Hoje a tecnologia faz parte da rotina das crianças e traz muitas possibilidades de aprendizado e entretenimento. O problema não se encontra no uso da tecnologia em si, mas no espaço que ela ocupa, já que ela substitui alguns aprendizados que seus brinquedos tradicionais lhe propiciaram.

Quando uma criança brincava de amarelinha, ela não estava simplesmente pulando os quadrados desenhados no chão. Estava esperando sua vez, aprendendo a obedecer regras, a lidar com os erros e a insistir diante das dificuldades. Quando perdia uma rodada, tinha que administrar uma frustração. Quando ganhava, aprendia a comemorar sem desrespeitar os colegas.

Já no esconde-esconde, desenvolvia criatividade, planejamento e resolução de problemas. Na queimada, o que se exercitava era o trabalho em equipe, atenção e estratégia. E mesmo as pequenas disputas ocorridas nos momentos de brincadeiras eram oportunidades para se aprender negociação, empatia e convivência.

Atualmente, muitos aplicativos disponibilizam estímulos rápidos e recompensas imediatas. Um toque na tela e já se muda de fase, inicia-se um novo jogo ou se encontra outra distração. Já nas brincadeiras presenciais, as crianças precisavam construir juntas a própria diversão, resolver conflitos e encontrar soluções criativas para os desafios que surgiam.

Isso não quer dizer que devamos deixar de lado a tecnologia ou querer voltar ao passado. O convite é que pensemos no equilíbrio. As crianças continuam precisando correr, imaginar, criar, negociar, esperar e conviver. São essas experiênciasque seguirão sendo tão necessárias nos dias de hoje como foram há algumas décadas. Talvez, a indagação mais relevante não seja se as brincadeiras do passado eram melhores, mas o que elas contavam que ainda importa na infância de hoje.

Nesse período de férias para as crianças, que, está chegando, inclui-se um desafio para as famílias: que tal trazer às crianças algumas das brincadeiras da sua própria infância? E garanto que não terá custo nenhum. Uma amarelinha desenhada no chão da calçada, uma partida de pega-pega, barata no ar ou ainda o simples esconde-esconde. Muitas vezes, aquilo que fez diferença não era a tecnologia ou o alto custo, mas o tempo, a presença e a disposição para estar com as crianças e brincar.Porque as mais importantes lições da infância nunca saem de moda.

O que a amarelinha ensinava que os aplicativos não ensinam?

Por: Evelyn Natiele Paes da Silva
CRP 14/08452-7
Psicóloga Clínica Infantil e Familiar

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