Dias se passaram depois daquele fatídico episódio da briga entre Bartimeu e Fiorela, onde ela resolveu que queria “dar um tempo” no relacionamento deles. Bartimeu passava seus dias alternando entre chorar, suspirar e desabafar com seu melhor amigo, Clemente, o cavalo.

Por outro lado, Romualdo e Fiorela se aproximavam cada vez mais, pois eles estavam recebendo cuidados especiais para participarem do concurso de beleza da Feira Agropecuária anual, onde seriam exibidos os melhores animais de todos os sítios e fazendas daquela região. Era um momento muito aguardado por todos, tanto humanos como animais, pois além da exibição dos animais, também havia a venda de muita comida gostosa e um pequeno parque de diversões, com os tradicionais jogos de tiro ao alvo, carrossel, montanha-russa, carrinho de bate-bate e várias outras atrações.
Neste mesmo mês haviam chegado à fazenda Capim Dourado alguns novos animais. O fazendeiro havia comprado algumas galinhas botadeiras ainda bem jovens e dentre elas, Fiorela teve uma grata surpresa: sua amiga Madalena, que havia crescido com ela em outro galinheiro, numa fazenda a poucos quilômetros dali.

_ Madalena!!! Que saudade!!! Não acredito que estamos juntas novamente!!!
_ Amigaaaa!!! Que alegria!!! Que bom te ver de novo!!!
_ Tudo bem com você, Madá? Achei que nunca mais iríamos nos encontrar.
_ Eu também! Fiquei muito triste quando você foi vendida para outro lugar. Chorei por vários dias até me acostumar sem você. Foi muito difícil pra mim! Eu estou muito bem, obrigada! Mas e você? Me conta como é a vida aqui. Você está tão linda, parece até que rejuvenesceu! O que você anda fazendo?
_ Ah, imagina! Muito obrigada! Não faço nada de mais. Apenas tomo o solzinho da manhã já nas primeiras horas do dia. Depois lavo minhas penas na água refrescante do riacho e em seguida parto para o café da manhã. Hoje mesmo vou te mostrar onde você pode encontrar as minhocas mais gordinhas e suculentas. Depois disso faço uma caminhada vigorosa com o meu amigo Romualdo.
_ Hummm, só amigo mesmo, hein???
_ Para de bobeira, Madalena!!! É só amigo mesmo. Meu coração atualmente está fechado para balaço. Eu estava namorando um outro galo aqui da fazenda, mas ele pisou feio na bola comigo. Ainda não terminei, mas também não quero ficar perto dele. Estou dando um tempo pra pensar, esfriar a cabeça e refletir se é isso mesmo que eu quero pra mim. Logo, logo você vai conhecê-lo, ele se chama Bartimeu.
Madalena ergueu os olhos e avistou de longe o galo Romualdo que, estrategicamente, fazia seu treino justamente em um lugar onde poderia ser observado pelas meninas. Mas vaidoso como era, fingia não estar prestando atenção a ninguém ao seu redor.
Madalena comentou animada:
_ Não me diga que o Bartimeu é aquele galo alto e forte ali à frente? Se for, você é louca de dispensar um cara como ele!
_ O quê? Ah, não, não! Aquele ali é o Romualdo, o amigo que eu te falei. Eu e ele fomos escolhidos para representar a fazenda na Feira Agropecuária e por isso estamos sendo preparados juntos. Ele é muito gente boa. Um pouquinho vaidoso, é verdade. Mas tem um enorme coração. Inclusive já salvou a vida do Bartimeu uma vez. E a ingratidão do Bartimeu foi um dos motivos de termos brigado.
_ Grande coração? Ele tem é um grande peitoral, isso sim! Nossa, que físico! Nunca tinha visto um galo tão lindo assim, ele exala força e beleza! É um verdadeiro “galão” de cinema!
_ Para de palhaçada, Madalena! Deixa de ser assanhada. Também não é pra tanto! Mas se você estiver mesmo interessada, posso apresentar você a ele, daqui a pouco. Mas antes, se acalme, não vai dar tanta bandeira! Finja naturalidade.
_ Ai, tá bom! Só falei…
_ Então tá. Vamos lá, para o nosso passeio? Vou te apresentar pra todo mundo e mostrar meus lugares favoritos.
_ Bora lá!
As duas amigas seguiram animadas pela fazenda toda. Passaram pelo lago dos patos, se deliciaram com algumas frutas caídas no chão do pomar, rodearam a casa do fazendeiro, onde avistaram a esposa dele na varanda amassando um pão caseiro, enquanto cantarolava uma antiga canção que também passava no velho rádio.
Fiorela foi em praticamente todos os cantos onde havia animais a serem apresentados para sua amiga. Só evitou passar pela baia dos cavalos, pois temia encontrar Bartimeu. E hoje ela não estava a fim de vê-lo com aquele olhar de tristeza suplicante. Não. Hoje não. O dia estava lindo demais para súplicas e lamentos.
_ Olha, amiga. Este lugar é maravilhoso. Eu gosto muito de morar aqui. Temos água fresquinha, muitas árvores de frutos deliciosos e copas frondosas para nos abrigar do calor. Temos um celeiro maravilhoso e confortável onde podemos nos sentir seguras e ainda temos o nosso galinheiro todo cercado e bem cuidado. Não tenho do que reclamar. Mas, mesmo assim, temos que ficar atentas. Em todo lugar pode aparecer algum predador e por isso não devemos andar sozinhas e nem ir muito longe. Outro dia mesmo a família dos coelhos quase foi picada por uma…
_ Coooobraaaa!!!! – gritou Madalena – Uma cobra!!! Socorro, ela está vindo pra cima de nós! Socorrooooo!!!!!!!!!!!
Fiorela ficou aturdida, sem conseguir reagir. Madalena continuava gritando e pulando em volta dela, e enquanto isso, a cobra ia chegando perigosamente próxima demais delas.
De repente, ouviram um barulho como que de um raio passando por elas. Alguém correndo tão rápido que o chão parecia vibrar. Era Bartimeu, que veio corajosamente defender as duas mocinhas.
Sem temer pela sua própria vida, Bartimeu pulava, voava e bicava a cabeça da cobra em gestos tão rápidos que ela não conseguia nem armar seu bote. Se aproveitando desse momento de distração da serpente, Bartimeu gritou: “Corram, meninas! Corram!!!”

As duas correram loucamente, como se não houvesse amanhã. Quando já estavam em um lugar seguro, pararam para recuperar o fôlego e olharam para trás, para ver o que estava acontecendo.
Ao longe, Bartimeu continuava sua luta contra a cobra, mas agora esta já estava começando a se retirar dali, percebendo que não iria conseguir atingir seu objetivo. Ela tinha levado tanta bicada na cabeça que estava sangrando, inclusive de um olho.
Enquanto isso, perto dali, Romualdo havia terminado sua rotina de treinos para peitoral e bíceps, quando avistou as galinhas e resolveu se aproximar para saber o que estava acontecendo.
_ Olá, meninas! Tudo bem com vocês? Parece que estão assustadas! O que foi que aconteceu? Posso ajudá-las em alguma coisa? – e dizendo isso, flexionou suas asas, mostrando seu músculo – Estou sempre aqui para o que precisarem!
_ Ah, não precisa não! Aquele galo ali já botou a cobra pra correr. E sozinho! – disse Madalena.
Romualdo olhou para onde ela havia indicado para ver de quem ela estava falando.
_ Aquele galo ali? Espantou uma cobra? Você tem certeza, mocinha?
_ Tenho certeza sim, bombadão! Dizem que os baixinhos são os mais bravos, né? Acabamos de comprovar na prática. O galinho ali não decepcionou!
_ Foi isso mesmo, Romualdo – disse Fiorela – o Bartimeu nos salvou e botou a peçonhenta pra correr. Eu também fiquei impressionada. Quer dizer, acho que já era de se esperar, né? O meu galinho Bartimeu sempre foi corajoso, destemido e protetor. Ele daria a vida por mim se precisasse. Meu galinho é o meu herói!!! – e dizendo isso, Fiorela suspirou.
Fiorela correu ao encontro de Bartimeu e antes de chegar já começou a gritar:
_ Meu amor! Meu galinho! Você está bem???
Bartimeu mal podia acreditar no que estava ouvindo. Depois de semanas sendo ignorado por Fiorela, ouvir essas palavras parecia um doce delírio.
_ Sim, minha doce Fiorela, eu estou bem! Um pouco cansado, suado e sujo, mas estou bem. O que mais importa pra mim é a sua segurança. Enfrentaria cem cobras se preciso fosse. E você? Você está bem, minha querida?
_ Oh, meu amor! Como você é maravilhoso! Sim, eu estou bem. E não quero nunca mais me separar de você. Prometa pra mim que isso nunca mais vai acontecer, prometa!
_ Claro, minha florzinha! Eu prometo! Nada vai nos separar!

_ Oh, Bartimeu!
_ Oh, Fiorela!
E os dois seguiram juntos para o caminho do celeiro, a fim de que Bartimeu pudesse descansar depois de sua épica batalha.
No fim de tudo, o amor venceu. Mas, peraí…. será que já era mesmo o fim?
Aguarde os próximos capítulos…
Por Bia Borges
