Fazemos algumas perguntas que já estão no automático em nosso dia a dia: “Está tudo bem?”, “Como foi na escola?”, “Por que você está assim?”. Muitas vezes, ouvimos sempre a mesma resposta. “Está tudo bem”. Mas será que está?
O sofrimento emocional nem sempre vem junto com um pedido claro de ajuda. Às vezes, ele surge em pequenas mudanças, principalmente no período escolar. Por exemplo, uma criança para de brincar como antes. Um adolescente começa a se isolar. O rendimento escolar cai de repente. A irritabilidade aparece com mais frequência. O sono muda. A pessoa perde o interesse pelas atividades que antes gostava. Pode até mudar a forma de se relacionar com os outros.

Ressaltamos, também, que crianças e adolescentes também passam por fases difíceis, mudanças e conflitos que fazem parte do crescimento. Por isso, é preciso prestar atenção quando essas mudanças começam, mudanças essas que ficam mais fortes ou começam a atrapalhar o dia a dia. E é aqui que a escola e a família podem fazer uma grande diferença.
A escola é o lugar onde crianças e adolescentes passam, depois do ambiente familiar, a segunda maior parte da vida. Professores e outros profissionais da educação, muitas vezes, notam mudanças antes mesmo que sejam elas percebidas em casa. Um aluno que costumava participar e agora fica em silêncio. Aquele que sempre esteve perto dos colegas e começa a se afastar. Uma criança que antes mostrava mais confiança, passa a ter mais medo ou dificuldade para se concentrar.
Observar não quer dizer diagnosticar. Quer dizer perceber. Da mesma forma, em casa, os pais podem perceber mudanças que não aparecem na escola. Por isso, a saúde emocional não deve ficar nas mãos de uma só pessoa. Ela pode ser construída com uma rede de cuidado, onde família, escola e o próprio aluno têm espaço para falar e ser ouvidos.

Talvez seja exatamente aí que precisamos mudar algumas perguntas. Ao perguntar “Está tudo bem?”, podemos tentar: “Notei que você está diferente. Quer falar comigo?”, “Está acontecendo algo que está sendo difícil para você?”, “Você quer que eu só te escute ou prefere que eu te ajude a pensar no que fazer?”, “Tem alguém na escola com quem você se sente à vontade para conversar?”. São perguntas simples, mas que dizem algo importante. “Eu percebi você. E você não precisa enfrentar isso sozinho.”.
É importante lembrar que acolher não quer dizer ter todas as respostas. Muitas vezes, ao ver uma criança ou adolescente sofrendo, o adulto sente vontade de resolver logo, dar conselhos ou dizer que aquilo vai passar. Mas, antes de resolver, talvez seja preciso ouvir. Dizer “isso não é tão grave” pode fazer com que uma pessoa se cale ainda mais. Comparar seu sofrimento com o de outras pessoas também pode afastá-la. Frases como “você tem tudo para ser feliz” ou “isso é só uma fase” podem parecer uma tentativa de ajuda. No entanto, nem sempre oferece o espaço necessário para que o mesmo consiga falar sobre o que está vivendo. Cuidar pode ser só ficar por perto e levar a sério o que foi compartilhado. E se for preciso, procure ajuda profissional.
O Setembro Amarelo nos convida a falar sobre prevenção do suicídio e valorização da vida e essa conversa não precisa acontecer só quando existe uma situação de crise. Ela pode começar bem antes, nas relações do dia a dia. Podendo ensinar crianças e adolescentes que falar sobre sentimentos não é sinal de fraqueza e que pedir ajuda é uma forma de cuidado. Na escola, isso quer dizer criar lugares para ouvir, fortalecer laços e ficar de olho em mudanças de comportamento.
Por isso, prestar atenção também é uma forma de cuidado. Às vezes, tudo começa quando alguém decide olhar um pouco mais de perto e passa a escutar com mais calma. Pois, cuidar da saúde emocional também é aprender a perceber aquilo que nem sempre é falado.

Por: Evelyn Natiele Paes da Silva
CRP 14/08452-7
Psicóloga Clínica Infantil e Familiar
