Em outubro de 2013, a Gazeta Educação registrava uma fase decisiva para muitos estudantes de Amambai. Às vésperas do Enem, alunos do 3º ano do Ensino Médio da Escola Estadual Vespasiano Martins viviam a expectativa da prova, dos vestibulares e das escolhas sobre o futuro.
Entre eles estava Evelyn Paes, então estudante do terceirão, cheia de sonhos e com uma certeza que já carregava desde cedo: a educação seria o caminho para transformar sua história.

Mais de uma década depois, aquele registro ganha novo significado. A jovem que apareceu na matéria sobre o Enem tornou-se psicóloga, especialista, supervisora clínica, professora convidada, mentora, palestrante e idealizadora de projetos voltados à Psicologia, especialmente à infância, às famílias e ao desenvolvimento humano.
Ao olhar para trás, Evelyn lembra daquele período como uma fase de muita exaustão, dedicação e intensidade. Filha de uma pedagoga e de um pai que sempre valorizou o conhecimento no trabalho, na igreja e na vida, ela cresceu em um ambiente onde estudar era algo importante e incentivado. No último ano do Ensino Médio, isso se intensificou. Evelyn recorda que vivia aquele momento com a consciência de que a educação e o conhecimento eram a maior herança que seus pais poderiam lhe deixar.
Ao conceder a entrevista para a Gazeta Educação, em 2013, ela não imaginava o quanto aquele registro se tornaria simbólico. Hoje, percebe que ali talvez já existisse “uma menina do interior iniciando o alcance da própria voz”.
Desde aquela época, Evelyn já sonhava grande. Ela se define como uma menina “avoada”, inspirada por histórias como Menino Maluquinho e Sítio do Picapau Amarelo. O quintal da avó, transformado pela imaginação em um mundo enorme, ajudou a alimentar sonhos que, mais tarde, ultrapassariam os limites de Amambai.
Mesmo sabendo que, na cidade, não havia exatamente tudo aquilo que desejava para sua formação, Evelyn nunca permitiu que sua origem fosse vista como limitação. Pelo contrário: ser do interior se tornou raiz, identidade e força.
A escolha pela Psicologia nasceu cedo. Ainda criança, Evelyn acompanhava a mãe em ambientes escolares e universitários. Durante mais de dez anos, sua mãe atuou como coordenadora da APAE de Amambai, e Evelyn conviveu com crianças, professoras e profissionais de diferentes áreas. Esse contato com a educação, a saúde, o desenvolvimento humano e as políticas públicas despertou nela um olhar atento para as pessoas e seus comportamentos.
Outra inspiração importante foi a “tia Rose”, sua psicopedagoga na infância, que também atuava na APAE. Evelyn se lembra da clínica cheia de recursos, cores e materiais, e de dizer, ainda pequena, que um dia teria uma clínica parecida. Hoje, esse sonho se concretizou.
Estudo, coragem e uma trajetória de conquistas
O caminho entre a sala de aula do Ensino Médio e a atuação profissional foi marcado por renúncias, estudos, reinvenções e amadurecimento. Evelyn se formou em Psicologia em 2020, justamente no ano da pandemia, quando planos precisaram ser reestruturados, concursos foram suspensos e o mundo vivia incertezas.
Foi nesse cenário que ela decidiu entrar para a clínica. A escolha transformou sua trajetória, especialmente porque envolveu o retorno para Amambai, depois de quatro anos morando sozinha em Dourados. Em meio à pandemia, à crise financeira e ao desafio de recomeçar profissionalmente em uma cidade do interior, Evelyn encontrou na Psicologia clínica um caminho de construção, propósito e crescimento.
Desde então, sua caminhada ganhou novos capítulos. Evelyn tornou-se a primeira psicóloga de sua família e hoje possui três especializações: Desenvolvimento Infantil, Saúde Mental e Terapia Cognitivo-Comportamental. Além dos atendimentos clínicos, passou a levar conhecimento por meio das redes sociais, palestras, oficinas, congressos, entrevistas, cursos e projetos.

Entre suas realizações, estão oito edições da Oficina das Emoções, a criação da Oficina das Emoções para Pais, a atuação como professora convidada em universidades, inclusive na UNIGRAN, instituição onde se formou, além de participações em eventos acadêmicos no Paraná, em Minas Gerais e em entrevistas com alcance nacional e internacional. Evelyn também possui artigo publicado em editora internacional e idealizou a Comunidade PsiCriar, voltada a psicólogas de todo o Brasil, com compartilhamento de recursos terapêuticos infantis.
A frase que costuma usar, “de Amambai para o mundo”, resume bem sua trajetória. Para Evelyn, ela é uma declaração de identidade. Representa a lembrança de onde veio, dos valores que recebeu da família e da herança mais valiosa que seus pais lhe deixaram: o conhecimento.
Memórias, Gazeta Educação e sonhos que seguem em movimento
Ao reencontrar a matéria da Gazeta Educação de 2013, Evelyn se emociona. Para ela, o jornal não registrou apenas uma reportagem sobre o Enem, mas um momento de construção, coragem e escolhas. Registrou também uma geração de jovens do interior que acreditava na educação como possibilidade de transformação.

A relação de Evelyn com a Gazeta Educação vem de antes daquela entrevista. Na infância, ela lembra que sua mãe levava o jornal para casa quando trabalhava na APAE. Gostava de procurar nas páginas se havia conhecidos nas fotos, pois, para ela, aparecer no jornal era algo “chique” e sinal de importância.
A seção “Brincando e Aprendendo” também marcou sua memória afetiva. Era um momento de qualidade com o pai, que lia o jornal e a chamava para preencher as atividades. Sem perceber, enquanto brincavam, desenvolviam atenção, raciocínio, concentração e amor pela aprendizagem. Hoje, como psicóloga infantil, Evelyn compreende ainda mais o valor dessas experiências simples.
Da turma de 2013, Evelyn ainda mantém contato com alguns colegas, seja de forma próxima ou pelas redes sociais. Muitos estudaram juntos desde o Ensino Fundamental até o Médio, criando laços que continuam presentes em famílias, igrejas, trabalhos e relações da comunidade. O grupo do terceirão do Vespasiano Martins ainda existe e, de tempos em tempos, resgata memórias, fatos e fotos.
Uma lembrança especial é a cápsula do tempo feita pela turma, em uma dinâmica conduzida pelo professor de Geografia, Danilo. Os estudantes escreveram cartas que só poderiam ser abertas dez anos depois. Evelyn conta que muito do que escreveu sobre sua formação e profissão se concretizou, tornando aquele reencontro ainda mais significativo.
Ao olhar para os colegas e para os sonhos compartilhados naquela sala de aula, o sentimento que fica é de gratidão e admiração. Alguns seguiram caminhos próximos ao que imaginavam, outros descobriram novos propósitos ao longo da vida. Para Evelyn, isso também faz parte da maturidade.
Hoje, como psicóloga, ela olha com mais sensibilidade para o período de escolha profissional vivido pelos adolescentes. Reconhece que a adolescência já é uma fase de construção de identidade, descobertas, inseguranças e transformações. Ao mesmo tempo, os jovens precisam lidar com a pressão de tomar decisões que parecem definir a vida inteira.
Por isso, seu conselho aos estudantes que hoje se preparam para o Enem, vestibulares e escolhas profissionais é claro: escolher uma profissão aos 16 ou 17 anos não significa escolher quem se será para sempre, mas sim um ponto de partida. Evelyn orienta os jovens a se conhecerem, serem curiosos sobre aquilo que gostam de fazer, prestarem atenção no que faz seus olhos brilharem e não compararem sua trajetória com a de outras pessoas.
De Amambai para o mundo: uma trajetória em construção
A Evelyn de hoje realizou muitos dos sonhos da estudante de 2013. Estudou em uma boa universidade, teve acesso a professores que ampliaram sua visão de mundo, construiu uma carreira sólida por meio de sua identidade e conhecimento, levou seu nome e seu trabalho além de Amambai e segue ampliando seus projetos.
Atualmente, trabalha em uma mentoria para pais e na ampliação dos atendimentos on-line, para alcançar famílias de outros estados e lugares. Também deseja continuar usando a comunicação para levar a Psicologia a mais pessoas, especialmente àquelas que nem sempre têm condições de acessar a terapia.

Para os alunos de Amambai que hoje sonham com o futuro, Evelyn deixa uma mensagem de incentivo: valorizem a educação, valorizem quem incentiva vocês a aprender, valorizem a curiosidade, a disciplina e o processo. Nunca permitam que o lugar onde nasceram defina o tamanho dos sonhos que podem construir. Ser do interior nunca foi limitação para ela; sempre foi raiz e identidade.
Mais de dez anos depois daquela matéria sobre o Enem, a trajetória de Evelyn Paes mostra que os sonhos plantados na escola podem atravessar o tempo, ganhar novos significados e alcançar lugares que, um dia, pareciam distantes.
De Amambai para o mundo, sua história segue em construção. E, como ela mesma resume, aquela matéria guarda sonhos, escolhas e histórias em movimento. Mais do que um registro sobre o Enem, representa uma geração buscando aquilo que ninguém pode tirar: o conhecimento.
Por Patrícia Rocha
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