sábado, 30 de maio de 2026

Quando a memória entra em campo

Do registro feito em clima de Copa aos sonhos da juventude, Alice e Júlia mostram como a escola guarda histórias que atravessam o tempo

Em junho de 2014, o Brasil vivia o clima contagiante da Copa do Mundo. As escolas eram decoradas com verde e amarelo, as salas ganhavam bandeiras, desenhos e atividades temáticas, enquanto a infância entrava em campo com a alegria de quem ainda enxergava o mundo pela lente da brincadeira, da torcida e da imaginação.
Naquele ano, a capa da Gazeta Educação registrou um desses momentos: Alice e Júlia, então alunas da pré-escola, representando o entusiasmo da Copa, o encantamento das atividades escolares e a construção de memórias que atravessariam o tempo.
Doze anos depois, aquela imagem ganha um novo significado.
As meninas da capa cresceram. Hoje, Alice e Júlia estão no 3º ano do Ensino Médio e vivem uma das fases mais decisivas da vida escolar.
Se em 2014 o Brasil se preparava para entrar em campo, agora são elas que se preparam para a grande partida do futuro. Cercadas por sonhos, dúvidas, expectativas, escolhas profissionais e a emoção de encerrar uma etapa importante da trajetória estudantil.

Quando a memória entra em campo
Capa da Gazeta Educação de junho de 2014 – Júlia e Alice são as duas do centro da foto da capa

Ao olhar para a capa antiga, Alice conta sentir uma grande nostalgia. A imagem a leva de volta às lembranças do início da vida escolar, das colegas e das atividades realizadas na escola.
Entre as memórias mais marcantes, ela recorda a professora de artes entregando à turma um desenho da bandeira do Brasil para colorir. Também se lembra da alegria das comemorações durante os jogos.
“Quando o Brasil fazia gol, eu assoprava um apito e uma trombetinha de brinquedo”, relembra.
Júlia também guarda lembranças daquele período, mesmo que algumas apareçam hoje de forma mais distante. Para ela, a Copa era um momento muito colorido e marcante da infância.
Mesmo sem gostar tanto de futebol, lembra que torcia muito pelo Neymar. Ao rever a capa, achou especial perceber que já havia participado de uma edição da Gazeta Educação ainda tão pequena.
Segundo a diretora da Escola Municipal Dr. Rachid Saldanha Derzi, Rosangela Pereira dos Santos, atividades desenvolvidas em clima de Copa do Mundo representam muito mais do que falar sobre futebol dentro da Educação Infantil.
“Esse tipo de atividade desperta o interesse e a motivação das crianças, favorece a imaginação, a convivência, a brincadeira simbólica e o trabalho em equipe. Também amplia o conhecimento sobre diferentes culturas, bandeiras, músicas, idiomas e costumes”, destaca.
Ela explica ainda que o tema permite desenvolver projetos interdisciplinares, envolvendo artes, música, movimento, linguagem oral e diversas outras áreas do conhecimento, tornando a aprendizagem mais significativa e contextualizada.
“Na Educação Infantil, o mais importante não é a competição, mas o brincar, a convivência e as experiências que favorecem o desenvolvimento da criança de forma prazerosa e educativa”, ressalta.
A diretora afirma que, neste ano, a escola pretende retomar o tema da Copa do Mundo junto aos alunos, aproveitando o interesse natural que o evento desperta nas crianças.
“A Copa oferece inúmeras possibilidades pedagógicas. Esse entusiasmo favorece atividades que estimulam a participação, a socialização e a aprendizagem de maneira prazerosa”, acrescenta.

Quando a escola vira memória
As lembranças das duas mostram como a escola tem o poder de transformar atividades simples em memórias que atravessam o tempo.
Um desenho colorido, uma sala decorada, uma torcida coletiva ou uma fotografia publicada no jornal podem parecer pequenos no momento em que acontecem, mas, anos depois, tornam-se registros preciosos de uma fase que não volta mais.
Na infância, os sonhos tinham outro ritmo. Alice sonhava em morar na praia e brincar no mar todos os dias. Júlia aguardava ansiosamente pelas férias, pelo reencontro com os primos e pela chegada do Natal, além de imaginar um futuro como veterinária.
Hoje, os sonhos amadureceram junto com elas.
Aos 17 anos, Alice acredita que ainda carrega traços importantes da infância, como a autenticidade e a criatividade. Júlia, por sua vez, diz perceber o quanto o tempo transforma as pessoas e a forma de enxergar o mundo.

A fase das escolhas
Se antes os sonhos estavam ligados às brincadeiras da infância, agora Alice e Júlia vivem uma etapa marcada por decisões e expectativas sobre o futuro.
No último ano do Ensino Médio, as duas enfrentam um dos momentos mais desafiadores da vida escolar: a escolha dos caminhos que desejam seguir daqui para frente.
Entre dúvidas, planos e descobertas, surgem perguntas comuns a muitos jovens nessa fase: que profissão escolher? Como será a vida depois da escola? E quais sonhos ainda farão sentido nos próximos anos?
O diretor-adjunto da Escola Estadual Dom Aquino Corrêa, Altamir Lima, afirma que essa é uma fase marcada por mudanças, expectativas e decisões importantes.
“A escola sempre procura orientar os estudantes do 3º ano com muito cuidado, porque esse é um momento de grandes escolhas e reflexões sobre o futuro”, afirma.
Segundo ele, o papel da escola também é incentivar os jovens a buscarem caminhos que tragam realização pessoal e profissional.
Altamir ressalta ainda que, para os estudantes que passaram muitos anos dentro da instituição, esse período se torna ainda mais significativo.
“Existe uma história construída aqui, marcada por aprendizagens, convivências, desafios e conquistas. É motivo de orgulho acompanhar o crescimento desses alunos e saber que contribuímos com ensinamentos, valores e experiências importantes para a formação de cada um”, afirma.

Caminhos profissionais e planos para o futuro
Alice reconhece que a escolha profissional traz inseguranças e desafios típicos dessa fase da vida.
“A alegria de começar um novo capítulo da minha história é maior do que o medo”, afirma.
Ela pretende cursar fonoaudiologia e sonha em trabalhar ajudando crianças e adolescentes.
Júlia também define esse período como “amedrontador”, principalmente pelo receio de que algo dê errado. Ainda assim, planeja construir uma carreira estável, conquistar a casa própria e realizar sonhos pessoais.
Seu objetivo é cursar licenciatura em Artes Visuais e focar em concursos públicos.
Mesmo com personalidades diferentes, Alice e Júlia compartilham sentimentos comuns dessa fase marcada por mudanças, dúvidas e expectativas sobre o futuro.
Nesse processo, o apoio da família, dos amigos e da fé aparece como parte importante da caminhada.
Alice afirma que Jesus tem sido sua força para seguir em busca dos objetivos. Júlia aponta os pais como suas maiores referências e as pessoas que a ajudam a manter o equilíbrio nos momentos difíceis.

Ninguém cresce sozinho
Assim como no futebol, a vida exige treino, coragem, apoio e determinação. E, nessa grande partida, ninguém cresce sozinho.
A escola, a família, os professores, os amigos e as experiências vividas ao longo dos anos ajudam a formar não apenas estudantes, mas pessoas em construção.
Ao deixarem uma mensagem para outros adolescentes que também vivem esse momento de expectativas e escolhas, Alice e Júlia falam com a sensibilidade de quem entende a importância do presente.
Alice aconselha os jovens a se divertirem, aprenderem o máximo possível e viverem o agora, porque um dia tudo isso será memória.
Júlia reforça a importância de tentar. Para ela, mesmo quem falha já está à frente de quem nunca tentou.

A Gazeta Educação como guardiã de histórias
A relação com a Gazeta Educação também faz parte dessa memória escolar.
Alice conta que nunca esqueceu a capa de 2014, principalmente porque a mãe costuma reencontrar fotos e vídeos antigos na galeria do celular. Ela também se lembra de receber exemplares da Gazeta Educação quando estudava na Escola Fernando e de ler algumas matérias do jornal.
Júlia, embora não se recordasse da capa, achou muito especial descobrir esse registro tantos anos depois.
“Se eu tivesse visto minha foto no jornal naquela época, teria me sentido o máximo”, brinca.
Mais do que uma publicação, a Gazeta Educação guarda histórias. Ao circular pelas escolas, o jornal registra projetos, atividades, rostos, professores e momentos que passam a fazer parte da trajetória dos estudantes.

Quando a memória entra em campo
Doze anos depois, Júlia e Alice estão no 3º ano do Ensino Médio e vivem uma das fases mais decisivas da vida escolar (Foto Kadyma Freitas)


Doze anos depois, a antiga capa em clima de Copa deixa de ser apenas uma lembrança da infância e ganha um novo significado ao reencontrar Alice e Júlia já no último ano da vida escolar.
Entre uma imagem e outra, existe uma trajetória marcada por aprendizagens, amizades, descobertas e sonhos que cresceram junto com elas.
Porque algumas memórias nunca deixam de acompanhar quem nos tornamos.

Por Raquel Fernandes

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