Ah, o ar puro do campo! Não há nada melhor do que sentir aquele ventinho gostoso tocando nosso rosto e cabelos… no caso do nosso protagonista, o vento tocava sua imponente crista e suas penas lustrosas e macias.
O galo Bartimeu gostava de cochilar empoleirado no pé de manga que ficava bem no meio do pomar, de onde ele avistava toda a fazenda, sentindo o frescor da sombra e o vento agradável que por ali soprava.
E foi numa dessas tardes agradáveis de março que tudo mudou. O ronco do motor da camionete quebrou o silêncio costumeiro, como um presságio do que estaria por vir. Na carroceria do veículo, além de ferramentas e suprimentos para a lida no campo, havia também uma gaiola. E dentro da gaiola, uma pequena galinha.
O senhor Dirceu saiu rapidamente pela porta da camionete e chamou seu ajudante para ajudá-lo a descarregar as compras. A gaiola foi levada para o galinheiro. As outras compras foram direcionadas, cada uma ao seu devido lugar.
Bartimeu assistiu a tudo sem nenhum interesse especial. Era apenas mais uma tarde na fazenda. O galo desceu da árvore com um salto e foi para a próxima tarefa do dia: ciscar e lanchar. E foi neste momento, enquanto ciscava distraidamente, que Bartimeu viu sair do galinheiro a criatura mais encantadora que ele já havia visto em toda a sua vida.
Era uma galinha jovem e delicada, com penas cor de cobre lustrosas, que caminhava elegante e imponente pela estradinha que passava pelo meio daquela propriedade.
Bartimeu ficou atônito, paralisado, com o bico aberto e olhos arregalados. Seu coração bateu apressado, a boca secou e suas pernas quase tremeram quando aquela perfeição em forma de galinha se aproximou dele e disse:
_ Olá!
Bartimeu continuou paralisado.
_ Ei! Estou falando com você! Você fala a minha língua?
_ Anh… ehh… O-o-olá!
_ Você mora aqui há muito tempo?
_ Si-si-sim! Desde que nasci.
_ Hum… tá. Então me diga, o que há de bom para se fazer por aqui? Como é seu nome, mesmo? O meu é Fiorela.
_ Muito prazer, Fiorela! Que nome lindo! O meu é Bartimeu.
_ Prazer, Bartimeu. Mas e aí, me conta. Como é morar por aqui? Acabei de chegar. Tô achando meio parado!
_ Ah, não! Aqui é super legal, tenho certeza de que você vai gostar. Vem comigo, vamos dar uma volta!
Bartimeu sentia seu coração quase pular para fora do peito. Ele nunca havia sentido nada tão forte por alguém antes. A doce Fiorela era a galinha mais linda que ele conhecera em toda a sua vida.
Bartimeu, então, foi mostrando cada canto da propriedade, fazendo companhia para aquela bela ave. Ele mostrou o estábulo dos cavalos, o curral do gado e o aprisco das ovelhas… Fiorela ia ficando cada vez mais admirada. Bartimeu, decidiu então, levar a adorável galinha para um lugar mais privado e romântico.
À medida que eles iam se aproximando do lago, seu coração batia mais acelerado… ele ensaiou uma ou duas palavras, mas não conseguir formular nada com sentido em sua mente… Ao avistar, porém, um casal de patinhos brincando no lago, Bartimeu resolveu se aventurar:
_ Como é romântica a vida na fazenda não é mesmo, Fiorela?
Antes, contudo, que Fiorela pudesse responder, Bartimeu viu que os olhos da donzela se distraíram para um outro ponto da fazenda:
_ Quem é aquele jovem bonitão? – perguntou a galinha.
Virando a cabeça sem mover a direção de seu corpo, Bartimeu viu que Fiorela fitava o seu primo Romualdo.
Romualdo era um galo índio puro, bem maior e mais forte que Bartimeu. Sua crista vermelha no topo da cabeça emoldurada por belas penas ruivas que desciam pelo pescoço até encontrar-se com a plumagem negra como petróleo, que destacava seu enorme peitoral que parecia trabalhado por algum tipo de hormônio galináceo, mas que era na verdade todo natural, formava com o todo uma linda escultura com seus 1,20 m de altura distribuídos em seus 7 quilos de puro músculo. Fiorela estava hipnotizada… Já não adiantava nada mais que Bartimeu tentasse dizer ou fazer, pois a atenção de Fiorela já havia sido conquistada.
_ E aí, Frangolino, quanto tempo?
Bartimeu odiava esse apelido. Ele fora dado pelo próprio Romualdo para enaltecer para os amigos seus atributos em comparação ao Frango…, digo, ao Bartimeu.
_ O que você está fazendo aqui? – Perguntou rispidamente Bartimeu ao invasor.
_ Que isso, primo? Não é assim que se trata os parentes!
_ Nem sei se de fato somos parentes! E a propósito, o meu nome é Bartimeu! Você já deveria estar careca de saber isso!
Ao perceber que conseguira enervar o seu primo, Romualdo, inflou ainda mais o peito e dirigiu-se a Fiorela:
_ E você, bela donzela, qual é mesmo a sua graça?
_ Graça de quê? – respondeu asperamente Bartimeu! – O nome dela é Fiorela e ela está muito bem acompanhada!
_ Fiorela nem pôde responder! De repente ela se viu diante de um verdadeiro duelo de testosterona avícola e, antes que a coisa começasse a engrossar, ela desconversou:
_ Ora, nem percebemos que o sol começou a baixar, né… Acho que está na hora de procurarmos o nosso poleiro!
Na verdade, o sol ainda estava a brilhar, mas a galinha deu um jeito de se afastar, enquanto os rivais se entreolhavam de forma fulminante. Afastando-se um do outro sem se darem as costas, como que desconfiando da honestidade de seu adversário, os galos procuraram o seu canto para bolar a melhor estratégia para conquistar a atenção da amada e eliminar de alguma maneira o seu rival.

