sábado, 30 de maio de 2026

A riqueza da simplicidade

Era feriado de aniversário da cidade onde Nícolas morava. Uma pequena e encantadora cidade no sul do Mato Grosso do Sul, chamada Brasiguaia (que recebeu este nome por estar localizada na fronteira entre Brasil e Paraguai).

Os pais de Nícolas eram paranaenses, mas ele tinha nascido ali, em terras sul-mato-grossenses, lugar com uma grande riqueza cultural, onde conviviam, quase sempre pacificamente, paraguaios, brasileiros e indígenas.

O pai de Nícolas, o senhor Antônio, homem muito trabalhador e amoroso, apesar do jeito “rústico” de ser, ganhava a vida como vendedor ambulante. Todas as manhãs ele se dirigia bem cedo até o sítio de seu irmão Everaldo, carregava a carroceria da camionete com caixas cheias de frutas e verduras e saía vendendo – ora pelas ruas da cidade, ora entrando pelas estradinhas dentro das aldeias. Havia duas aldeias ali próximas àquela cidade.

E como todos os dias ele fazia, mesmo quando era feriado, naquela sexta-feira ensolarada do começo de abril, ele fez o mesmo. Só que desta vez, levava Nícolas consigo. E apesar de ter acordado de madrugada, o menino estava todo empolgado.

            A velha e guerreira camionete fez uma curva suave, saindo da rodovia e entrando em uma esburacada estrada de terra. A paisagem em volta era linda, com muito verde, contrastando com aquele céu azul anil e o sol brilhante. Sem nenhum exagero, se fossem tiradas fotografias de alguns lugares ali, dariam lindíssimos quadros.

_ Nícolas, meu filho, hoje eu vou vender minhas verduras e frutas aqui nesta aldeia. Você sempre diz que quer conhecer mais de perto, ver como a aldeia é por dentro, então eu te trouxe aqui. Mas olha, seja respeitoso, tá bom? Essas pessoas são muito humildes, são alegres, gostam de receber visitas, e eu fiz muita amizade por aqui.

            Os dois entraram bem para o fundo da aldeia, bem longe da rodovia, pois Antônio gostava de fazer assim: começar pelas casas mais longe e terminar pelas casas mais próximas da saída para a cidade. Assim, se a camionete resolvesse estragar, ele teria mais chance de conseguir um socorro rápido.

            Na primeira casa em que pararam, Antônio pressionou levemente a buzina duas vezes, e a família toda já veio para fora de casa, para recebê-los. Era um casal com seus trinta e alguns anos e três crianças, sendo que o mais velho era um menino da mesma idade que Nícolas.

            A casa era simples, de madeira, sem pintura e sem piso. O chão era de terra batida. Na frente da casa, sob a sombra de um gigante pé de manga, haviam banquinhos feitos de tijolos soltos e restos de madeira.

_ M’baecha pá, seu Antônio! (Como vai, seu Antônio?!)

_ Iporã! Há’nde, seu Elviro? (Muito bem! E você, seu Elviro?)

            Nícolas sempre ficava impressionado quando ouvia seu pai falando a língua dos indígenas. Ele também tinha vontade de aprender, mas achava muito difícil. Em seguida os dois homens já trataram logo de fazer suas negociações, escolher a mercadoria e pechinchar o preço.

            Enquanto isso, Nícolas olhava curioso para as crianças, e as crianças olhavam curiosas de volta pra ele. Mas cada um no seu canto, ninguém tinha coragem de se aproximar um do outro. Até que finalmente o menino mais velho se aproximou um pouco e disse:

_ M’baecha nde rera?

_ O quê? – perguntou Nícolas, espantado.

_ M’baecha nde rera? – o menino repetiu.

_ Ele está perguntando qual é o seu nome, Nícolas! Fala pra ele! – disse o pai.

_ Ah! Oi, meu nome é Nícolas. E o seu?

_ Meu nome é Sandriel. Você quer “jugar” comigo? – disse o menino indígena.

_ “Jogar?” Jogar o quê?

_ Jugar é brincar. Vamos brincar de qualquer coisa. Você gosta de jogar “bulita*?”

(*bulita = bolinha de gude, biloca)

_ Eu posso brincar com ele, papai?

_ Pode sim, meu filho. Mas bem rapidinho, porque ainda temos que passar por muitas casas.

            Os dois então começaram imediatamente a brincar e se divertiram tanto juntos, que parecia que eram velhos conhecidos, amigos de longa data. Jogaram umas cinco partidas, e quando a brincadeira estava ficando boa, o pai chamou Nícolas para ir embora.

_ Vamos, filho! Está na hora.

_ Ahhh, pai! Não podemos ficar só mais um pouquinho?

_ Não, meu filho. Hoje não dá. Depois eu te trago aqui de novo. Eu prometo. Já vou ligar a camionete e fazer o motor funcionar. Vai se despedindo de todos. Te espero lá dentro.

            Nícolas ficou triste, mas obedeceu. Começou a cumprimentar a todos com um aperto de mão fraco, cabisbaixo por ir embora tão cedo. Enquanto isso, Antônio tentava fazer a camionete funcionar, mas nada acontecia.

            “Logo na primeira casa?” Pensou ele. “E aqui nem tem sinal de celular! O que eu vou fazer agora?”

_ Pode brincar mais um pouco, filho, até eu conseguir resolver isso aqui.

            Os dois meninos vibraram e correram a brincar de bulita novamente.

            O tempo foi passando e nada de Antônio conseguir uma solução. Já tinha feito tudo o que podia, e o motor não funcionava. E do ponto onde ele estava, não conseguia sinal de celular e muito menos carona, pois estavam bem afastados da rodovia.

            Os garotos, entretidos que estavam, nem perceberam o tempo passando. Brincaram de subir em árvores, pegaram frutas direto do pé (manga e goiaba eram as preferidas de Nícolas, mas só comia quando a mãe comprava no mercado). Sandriel mostrou para o amigo seus brinquedos feitos pelo pai dele, com reciclados, madeira e tudo mais que eles podiam encontrar na natureza, ou reutilizar do que havia sido descartado.

            Nícolas ficou apaixonado por um cavalinho de madeira que seu Elviro havia feito para o filho colocar dentro de um caminhãozinho de brinquedo e imaginar que era um motorista de caminhão que transportava cavalos para as fazendas. Também tinha uns bonecos feitos de pano com enchimento de palha, e muitas outras coisas. “Quem dera meu pai fosse criativo assim também”, pensou ele.

_ Vamos almoçar, meninos? Chamou a mãe de Sandriel.

_ Obaaaa! –  Gritaram em coro, as crianças.

            O almoço foi servido ali fora mesmo. Sobre uma pequena mesa foram colocadas as panelas. Os pratos, cada um de uma cor e modelo diferente. Alguns de vidro, outros de plástico e um esmaltado, com pequenos desgastes no esmalte. Cada um sentou em seu banquinho improvisado e colocou o prato sobre o colo.

            O cardápio foi arroz, feijão, carne de porco assada, salada de tomate com repolho e mandioca. Sobre a mesa também havia uma jarra enorme com suco dos limões colhidos ali na hora mesmo. Nícolas estava morrendo de fome e foi comendo tudo bem depressa, quase engasgando.

_ Calma, menino! A comida não vai fugir, não! Assim eles vão pensar que eu te deixei três dias amarrado e sem comer antes de vir pra cá – disse Antônio.

_ É que tá muito gostoso, pai! E eu estava com muita fome. E eu nunca comi uma comida tão gostosa assim! Desse jeito quero vir com você todo dia!!! – disse o menino sorrindo, e todos riram junto com ele.

            Logo depois do almoço chegou uma visita na casa de seu Elviro. Era o cunhado dele, Lúcio, em sua moto azul-petróleo. Os três homens ficaram conversando por alguns instantes e Antônio disse:

_ Filho, vou pegar carona com o Lúcio e vou te deixar aqui brincando. Mas vai ser bem rápido. Ele só vai comigo até um lugar mais alto ali na frente onde tem sinal de celular, pra eu ligar pro seu tio vir me socorrer com as ferramentas dele, tá bom? Daqui um minuto eu estou de volta. Fique aí brincando e se comporte!

            Os meninos passaram a tarde toda se divertindo e parece que a imaginação daqueles garotos não tinha fim. Brincaram que eram caçadores, piratas, brincaram de escolinha com os irmãos menores e na hora do lanche Nícolas comeu uma coisa que nunca tinha experimentado antes, se chamava “chipa-guaçu”. No final do dia, enquanto o tio de Nícolas acabava de consertar a camionete, os dois meninos foram pra um campinho ali perto, onde o menino branco conheceu mais crianças indígenas e a amizade entre eles foi imediata. Ele nunca havia jogado futebol com uma turma tão boa. Foi difícil vencer deles. Aliás, não venceu. Quem ajudou a vencer foram os outros jogadores do time dele. Ele mesmo mais atrapalhou do que ajudou. E, detalhe, entre as crianças da aldeia o jogo era misto – meninos e meninas jogavam juntos e ninguém aliviava pra ninguém. Ali era todo mundo igual.

            Quando finalmente consertaram a camionete e chegou a hora de voltar pra casa, já de noite e debaixo de um céu lindo e polvilhado de estrelas, Nícolas abaixou o vidro, sentiu a brisa da noite batendo em seu rosto e disse, com um suspiro:

_ É, papai… eu me surpreendi muito com o nosso passeio hoje. Na verdade, eles são muito mais ricos do que eu pensava!

Por: Bia Borges

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