Projeto une desenvolvimento físico, disciplina, autocontrole e valores que acompanham crianças e adolescentes dentro e fora do tatame
As primeiras lições do judô não começam com golpes. Começam com a queda. Antes de aprender projeções ou técnicas de defesa, os alunos treinam o ukemi, conjunto de movimentos que ensina a cair da maneira correta, protegendo o corpo e evitando lesões. No tatame, aprender a cair é tão importante quanto aprender a levantar. E talvez esteja aí uma das maiores lições da modalidade: na vida, as quedas fazem parte do caminho, mas saber enfrentá-las com técnica, equilíbrio e confiança pode fazer toda a diferença.


É com essa filosofia que cerca de 40 crianças e adolescentes, divididos em duas turmas, participam das aulas de judô no Instituto Eduardo Dutra Lescano. Com idades entre 7 e 15 anos, os estudantes treinam em um espaço preparado especialmente para a modalidade. As vagas são disputadas e, quando algum aluno deixa o projeto, outro já ocupa seu lugar, mantido por uma fila de espera.
As aulas são conduzidas pelo instrutor Tiago Paulo dos Santos Silva, faixa marrom, que acompanha boa parte da turma há cerca de quatro anos, desde um projeto anterior que posteriormente foi incorporado ao Instituto.
O judô é mais uma das atividades oferecidas pelo Instituto Eduardo Dutra Lescano dentro de sua proposta de formação integral de crianças e adolescentes. Muitos alunos participam também de outras oficinas desenvolvidas pela instituição, ampliando as oportunidades de aprendizado e convivência. Mais do que frequentar as aulas, eles são incentivados a manter boa assiduidade, compromisso com os horários e dedicação aos estudos, com acompanhamento periódico do desempenho escolar. Ao unir esporte, educação e valores, o projeto contribui para transformações que vão além do tatame, fortalecendo a autoestima, a responsabilidade e os vínculos familiares, tornando-se uma experiência que impacta positivamente a vida dos alunos e de suas famílias.


Muito além da atividade física
Embora o judô desenvolva força, condicionamento físico, equilíbrio, coordenação motora, agilidade e consciência corporal, os benefícios vão muito além do aspecto esportivo. A disciplina, o respeito, o foco e o autocontrole fazem parte de cada treino e acabam refletindo na rotina dos alunos, em casa e na escola.
“O que mais me satisfaz é ver a mudança de caráter deles. A gente acompanha a transformação, o amadurecimento e percebe que a disciplina construída aqui reflete em todas as áreas da vida”, afirma o instrutor Tiago.
Segundo ele, o trabalho desenvolvido no Instituto também acompanha o desempenho escolar dos alunos.
“A gente cobra o boletim, conversa sobre as dificuldades e procura mostrar que a mesma disciplina que eles aprendem aqui pode ajudá-los também na escola. Primeiro muda o comportamento, depois essa responsabilidade aparece naturalmente nos estudos e em casa.”

Durante os treinos, os alunos aprendem desde cedo a controlar emoções, respeitar regras e compreender que vencer e perder fazem parte do processo de evolução. A cada exercício, desenvolvem concentração, persistência e confiança para enfrentar novos desafios.
Um ambiente de respeito e superação
Quem convive diariamente no tatame percebe rapidamente que o judô vai muito além da luta. O ambiente de cooperação é um dos aspectos mais valorizados pelos próprios alunos.
Praticando judô há quatro anos, sendo um deles no Instituto, Alessandro Meira da Silva, de 13 anos, resume em poucas palavras o que mais aprecia na modalidade.
“O ambiente. É um ambiente muito respeitoso.”
Para ele, os maiores ensinamentos vão além das técnicas.
“O que eu mais aprendi foi respeito e disciplina.”


Já Alice Meira da Silva, de 10 anos, começou a praticar judô há três anos, inspirada pelo irmão Alessandro.
“Eu queria aprender a lutar para me defender e também queria ficar junto do meu irmão.”
Ela conta que, além da defesa pessoal, o judô trouxe mais confiança para enfrentar situações do dia a dia.
“Foi uma experiência muito legal e me ajudou também na escola.”
Durante os treinos, os alunos aprendem que errar faz parte do processo e que todos evoluem em ritmos diferentes. Isso reduz o medo de falhar e fortalece a autoestima.
Graduação: vencer a vergonha também faz parte da conquista
Outro momento importante da formação é a graduação das faixas. Mais do que uma avaliação técnica, ela representa um exercício de coragem.
Realizada diante dos colegas e das famílias, a prova exige demonstração dos golpes, conhecimento dos termos em japonês e domínio das técnicas aprendidas durante o ano.
Segundo o instrutor Tiago, para muitas crianças esse é o primeiro grande desafio de exposição pública.
“Os medos pessoais são colocados à prova. Eles fazem a avaliação na frente dos colegas e da família. Muitos ficam nervosos, mas aprendem a controlar as emoções e percebem que conseguem superar aquele momento.”
Por isso, a graduação nunca é tratada como um prêmio.
“Não é um presente. É uma conquista. Quando o aluno percebe que conseguiu porque se preparou, entende que todo esforço valeu a pena.”
No fim das contas, talvez essa seja a maior lição do judô. Antes de aprender a vencer um adversário, cada criança aprende a vencer a si mesma. Aprende a cair, levantar, persistir e seguir em frente; habilidades que certamente continuarão fazendo diferença muito além dos limites do tatame.


Por Patrícia Rocha
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