Larvicida desenvolvido a partir de resíduos e compostos presentes em produtos de limpeza apresenta resultados promissores e já começa a ser testado em campo
Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) pode representar um avanço importante no combate ao mosquito Aedes aegypti, transmissor de doenças como dengue, chikungunya e zika. Em estágio avançado, o estudo reúne inovação científica, sustentabilidade e aplicação prática, ao transformar resíduos e compostos químicos em um produto com ação larvicida e ovicida.
Um dos focos da pesquisa é o uso do Líquido da Casca da Castanha-de-Caju (LCC), um resíduo gerado pela indústria que, apesar de possuir propriedades eficazes contra as larvas, apresenta um desafio: é um óleo viscoso que não se mistura com a água, ambiente onde o mosquito se desenvolve.
Da pesquisa à solução
Para superar esse obstáculo, pesquisadores da UFGD vêm, há quase uma década, testando diferentes formulações. A solução encontrada foi combinar o LCC com compostos utilizados na indústria de limpeza, como o Lauril Sulfato de Sódio, tornando o produto solúvel em água e mais eficiente no combate ao mosquito.

Duas frentes de pesquisa
Além do uso do LCC, outra linha desenvolvida na universidade utiliza substâncias já presentes em desinfetantes domésticos.
Segundo a doutoranda em Química da UFGD, Bruna Fernanda Rodrigues Martins, a formulação envolve compostos quaternários de amônio associados a sais de cobre:
“Quando ele é utilizado como desinfetante, já fica um resíduo da própria limpeza que a dona de casa faz. Trabalhamos com compostos de quaternário de amônio, que são produtos presentes em desinfetantes domésticos, e também com sais de cobre. A ideia é pulverizar para matar o ovo e, se alguma larva sobreviver, ele também atua como larvicida.”
Na prática, o produto atua em duas frentes:
Elimina os ovos do mosquito (ação ovicida);
Atua também como larvicida, caso haja sobrevivência.

Testes em campo e aplicação real
Os estudos já avançaram para testes fora do laboratório. Em Itaporã, por exemplo, o produto vem sendo aplicado em criadouros reais, inclusive em locais onde não é possível eliminar a água acumulada, como lonas, estruturas fixas e reservatórios.
A coleta de amostras inclui tanto linhagens laboratoriais quanto mosquitos urbanos, mais resistentes. Os ovos utilizados nos testes são fornecidos pela Fiocruz, enquanto outros são coletados por meio de armadilhas chamadas ovitrampas, que ajudam a identificar áreas com maior infestação.
Desde fevereiro, o larvicida também passou a ser testado em residências, em parceria com o poder público, ampliando sua aplicação em condições reais.
Como o produto age
As análises indicam que o produto atua de duas formas:
Por ingestão, afetando a estrutura interna da larva;
Por contato direto na água.
Apesar dos bons resultados, os pesquisadores observam que o efeito não é permanente, o que pode exigir reaplicações periódicas.
Sustentabilidade e potencial de uso
Outro destaque da pesquisa é o potencial sustentável. No caso do LCC, trata-se de um resíduo que seria descartado, mas que ganha nova utilidade.
Em testes ambientais, o produto apresentou baixo impacto em outras espécies. Em experimentos com plantas, por exemplo, chegou a apresentar efeito positivo no crescimento, semelhante ao de um fertilizante.
Além disso, por utilizar compostos já presentes em produtos de limpeza, o inseticida tem potencial para, no futuro, integrar a rotina doméstica.
Um desafio contínuo
Apesar dos avanços, os pesquisadores alertam que não existe solução única para o controle do mosquito. O Aedes aegypti é altamente adaptável e pode desenvolver resistência ao longo do tempo.
Estudos mostram que populações urbanas podem exigir concentrações maiores de inseticida em comparação a linhagens de laboratório, o que reforça a necessidade de constante atualização das estratégias de combate.
Um arsenal contra o mosquito
Para os pesquisadores, o combate ao Aedes deve ser feito com múltiplas estratégias.
“O ideal é que a gente tenha um arsenal de recursos para o controle do inseto”, destaca o professor e pesquisador Eduardo José de Arruda, que atua na área desde 2005.
Além do uso de produtos como o larvicida, medidas como a eliminação de água parada e ações de controle público continuam sendo fundamentais.
Ciência que transforma
Desenvolvida no âmbito da pós-graduação da UFGD, a pesquisa reforça o papel das universidades públicas na produção de conhecimento aplicado, aproximando a ciência da realidade da população.
Mais do que um avanço acadêmico, o estudo representa uma contribuição concreta no enfrentamento de um dos principais desafios de saúde pública do país.

(Com informações de Dourados News)
