sexta-feira, 28 de novembro de 2025

O Dia de Ação de Graças – Por Bia Borges

O mês de novembro chegou e Marina estava em casa assistindo sua série americana preferida, com seu gatinho chamado Miojo. No episódio daquele dia a família Thompson havia se preparado a semana toda para o grande dia: o Dia de Ação de Graças.

A avó, Helen, estava na cozinha desde cedo, preparando um peru assado – o mais delicioso que alguém já havia provado. O cheiro inebriante enchia a casa e fazia o estômago de todos roncar de fome.

Os filhos, Jack e Lily, estavam ansiosos para comer o tradicional purê de batatas, os legumes assados e, claro, o famoso recheio da avó. A mãe, Sarah, estava ocupada preparando a decoração, tirando do armário a louça mais cara e os guardanapos de linho.

Quando o pai, Henry, chegou em casa do trabalho, foi recebido com abraços apertados dos filhos e um sorriso caloroso da esposa. “Hoje é o dia de agradecer por tudo o que temos”, disse ele, enquanto ajudava a descarregar as compras.

Depois de um delicioso jantar, a família se reuniu ao redor da mesa para compartilhar o motivo pelo qual cada um se sentia grato. Jack estava grato pelos novos amigos que fizera na escola, Lily estava grata por entrar para o time de natação. A avó, Helen, estava grata pela família que tinha e pela saúde que a permitia cozinhar para eles. Os pais estavam gratos por mais um ano de um casamento harmonioso e por sua linda família.

Uau – pensou Marina – como eu queria que aqui no Brasil também tivesse o Dia de Ação de Graças! Parece tão divertido! As comidas parecem ser tão deliciosas e tão diferentes de tudo o que eu conheço. Pena que eu moro tão longe dos Estados Unidos, e nem sei se um dia vou chegar a viajar pra lá. 

A mãe de Marina entrou no quarto e estranhou ver a filha tão pensativa e calada, com o olhar perdido, enquanto a série continuava passando sem ser assistida por ninguém.

_ Marina, minha filha! Está tudo bem?

            Marina piscou o olho, levando um pequeno susto:

_ Ah, sim, mãe! Tudo bem, sim. Por quê?

_ Você está aí distraída olhando pra fora da janela enquanto sua série favorita está passando e você nem está prestando atenção. Nunca vi isso! 

_ Ah, tá. É que estou pensando numa coisa aqui que eu vi. Só sonhando à toa. Nada de mais.

_ Sonhando com o que? Posso saber?

_ Pensando em como seria morar nos Estados Unidos e poder participar de um jantar de Ação de Graças. Deve ser muito bom!

_ Verdade… deve ser muito bom mesmo. Eles amam esse feriado, né? Lá é tão importante quanto o Natal pra nós.

_ Sério, mãe? Como você sabe?

_ Sério. Já vi uma reportagem sobre isso. Achei bem interessante. Também fico imaginando como deve ser. Sempre achei interessante conhecer as diferenças culturais de cada país. Se eu pudesse, sairia por aí conhecendo o mundo todo.

_ É mesmo, né, mãe? Eu também “me amarro” nessas coisas. Viajar podia ser de graça.

_ Podia mesmo – sorriu a mãe.

_ Mas, mãe! E se a gente fizesse um jantar de Ação de Graças aqui em casa mesmo? Do nosso jeito. O que vc acha?

_ Olha!!! Que ideia boa!!! Eu acho muito bom. Eu topo! Você me ajuda?

            As duas correram para a cozinha para dar uma olhada nos ingredientes que tinham e nos que iam precisar.

_ Temos quase tudo – disse a mãe – Vou ligar pro seu pai e vou pedir pra ele trazer sorvete de creme na volta do trabalho. Ouvi dizer que americano come sorvete com torta, e eu amo sorvete. Então, bora criar essa nova tradição aqui em casa.

_ Bora – concordou a filha, sorrindo.

_ E se a gente fizer uma calda de amora pra colocar no peru. Será que dá certo?

_ Olha, filha, a calda eu acho que dá. Mas vamos ter que substituir esse peru por coxa e sobrecoxa de frango assado. Pode ser? 

_ Claro, mãe! Pode sim.

_ Então tá. Agora vai ali na dona Jandira e pergunta se ainda tem amora no quintal dela. Assim a gente já garante a nossa calda.

_ É pra já! 

            Enquanto Marina saiu para buscar amoras na vizinha, a mãe começou a preparar o tempero do frango, que era especialidade dela, receita de família.

            O telefone tocou. Era o pai avisando que houve um problema no trabalho e que ele iria chegar muito tarde, provavelmente só depois das onze da noite. Tarde demais para jantar com elas e para trazer o sorvete de creme.

_ Ah, não, mãe! Como vamos jantar sem o papai? Assim não vai ter graça!

_ Calma, filha! Vamos pensar em alguma coisa. Talvez a gente deixe pra fazer esse jantar outro dia.

            Marina tentou segurar as lágrimas pois sabia que já estava bem grandinha para fazer birra, como fazia quando era pequena, mas dessa vez precisou de um esforço enorme, pois estava tão empolgada para seu jantar especial, e ver tudo ruir assim, foi muito duro pra ela.

_ Filha, tive uma ideia. Amanhã é sábado. Seu pai tem folga. E se a gente deixar tudo preparado hoje, e amanhã a gente finaliza e almoça com o papai? Assim a gente tem tempo de fazer tudo com calma e até melhor do que estávamos esperando.

            Marina se animou:

_ Verdade!!! Isso mesmo, mãe! E sabe o que mais?

_ O que?

_ E se a gente convidasse a dona Jandira pra almoçar aqui também?

_ Dona Jandira, a nossa vizinha?

_ Sim, mamãe! É que quando eu fui lá pedir as amoras eu contei pra ela do nosso plano e ela pareceu tão interessada… os olhos dela brilharam… fiquei com a sensação de que ela gostaria de ser convidada. E além do mais, ela vive tão sozinha depois que o marido dela faleceu e os filhos se mudaram pra longe… acho que seria bom tê-la com a gente.

_ É verdade, filha! Não estava me lembrando disso. Ainda bem que tenho uma filha muito observadora! 

            Mãe e filha passaram o resto do dia e uma parte da noite preparando tudo. Marina adorou ouvir a mãe contando as histórias de como havia aprendido a cozinhar com a mãe dela e de como sua avó tinha vários “segredinhos culinários”.

            O dia seguinte chegou e a menina estava ansiosa pelo seu primeiro almoço de Ação de Graças. A casa estava invadida por cheiros deliciosos. O frango assando no forno, a calda de amora borbulhando na panela. A torta de abóbora (receita nova que ainda não sabiam se ia dar certo) esfriava na bancada da pia. 

_ Mas, meu bem, você acha que dá certo esse negócio de colocar calda de amora no frango? Calda doce em cima de uma carne assada? Não é meio maluco não??? – disse o pai.

_ Confia em mim, amor! Eu também nunca provei assim. Mas essa combinação de doce com salgado costuma sempre dar certo. A gente não coloca banana na farofa junto com bacon? Uva passa na salada de maionese? Tenho certeza de que amora com frango também vai ser sucesso. 

_ É…. quem sabe, né? Mas você e a Marina gostam de inventar moda, hein? Um dia desses vou chegar em casa e você vai falar que fez cérebro de macaco pro almoço! Aí eu vou enlouquecer de vez!

            Todos caíram na gargalhada.

_ Nem tanto, pai! Aí já é demais. Eu gosto de experimentar sabores novos. Mas aí já é demais. E a senhora, dona Jandira, o que está achando do jantar?

_ Eu estou achando tudo maravilhoso, minha jovem! Tudo maravilhoso – disse dona Jandira com seu jeito doce e quieto.

            O almoço correu animado, todos com o coração cheio de alegria e gratidão por apreciar uma comida tão saborosa, mas acima de tudo, a companhia agradável uns dos outros. Fazia muitos anos que dona Jandira e a família de Marina eram vizinhos, mas nunca tinham comido juntos. 

_ Então, gente. Chegou a hora de comer a sobremesa e enquanto comemos podemos falar os motivos pelos quais somos gratos este ano.

_ Eu quero começar – disse o pai. Vou ler um versículo da Bíblia que fala sobre gratidão. Está lá em primeira Tessalonicenses, capítulo cinco, verso dezoito: “Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco”.  

Este versículo me faz pensar em duas coisas: agradecer a Deus e agradecer por tudo. Não é simplesmente dizer “gratidão”. Somos gratos a quem? Somos gratos pelo quê? E sendo assim, quero agradecer a Deus por mais este ano em que pude conviver com a minha família, pude trabalhar com saúde e nada nos faltou. 

_ Que lindo, meu amor! Eu também quero agradecer a Deus pela nossa família e pela presença da nossa querida vizinha, dona Jandira, que tanto nos abençoa com a sua amizade.

_ Muito obrigada, vizinhos! Vocês me alegraram demais com este convite. Agradeço a Deus pela companhia de vocês.

_ E você, Marina? Pelo que você é grata? – perguntou a mãe.

_ Ah… sou grata por tantas coisas! Mas principalmente, por estar aqui com vocês. E também pelo sorvete. Porque a torta que seria a nossa sobremesa, o Miojo acabou de comer!!!!!

Por Bia Borges

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