…No capítulo anterior, Bartimeu havia fugido do parque e atravessado a rodovia à procura de Fiorela, quando de repente, ouviu um rosnado atrás de si. Era um cachorro enorme e assustador. E agora? O que aconteceria com nosso nobre galinho???
_ Tufão – gritou Taiamã – volte aqui! Deixe o galo em paz! Nós temos que procurar a galinha desaparecida, garoto! Pare de arrumar confusão!
Bartimeu respirou aliviado. Por um momento ele havia pensado que aquele seria o seu fim.
_ O que você está fazendo aqui fora sozinho, galinho travesso??? Tá querendo se perder como a sua companheira???
Dizendo isso, Taiamã se abaixou e pegou Bartimeu no colo, que se aninhou confortavelmente em seus braços, sentindo seus batimentos cardíacos se acalmarem depois da explosão de adrenalina.
_ Vou ter que levar você comigo nesta investigação, mas você tem que prometer que vai ficar quietinho.
Taiamã, Bartimeu e Tufão se embrenharam na mata que ficava do outro lado da rodovia, em frente ao portão de saída do parque de exposições, para procurar mais pistas do desaparecimento de Fiorela.
Taiamã ia abrindo caminho com seu facão afiado, ora parando para ouvir algum barulho suspeito, ora se abaixando para verificar de perto algum vestígio no chão. Mas por enquanto, nenhum sinal de Fiorela. Tufão e Bartimeu seguiam acompanhando seu líder atentamente. Enquanto Tufão farejava cada cantinho, Bartimeu remexia folhas secas no chão, a fim de ajudar na busca de pistas.
Depois de caminharem metade da manhã até por volta das duas e quarenta da tarde, chegaram à margem de um pequeno riacho, onde aproveitaram para se refrescar nas águas cristalinas e se sentar um pouco para descansar enquanto admiravam a paisagem rural.
“Ah, como eu amo esse céu ensolarado e limpo” – pensou Taiamã consigo mesmo – “Não sei como tem gente que consegue viver no meio de fumaça e poluição. Isso aqui é que é vida!”.
_ Opa! Fumaça?! O que é aquela fumacinha saindo ali depois da clareira? Eu não sei de ninguém que mora por aqui! Será algum aventureiro acampando na mata? Será algum caçador ilegal exterminando nossos animais? Preciso investigar isso imediatamente!
Sorrateiramente, com toda sua habilidade para se locomover na mata, o indígena Taiamã foi seguindo a fumaça pela floresta, sem fazer nenhum ruído e sem chamar nenhuma atenção.
Eles nem podiam imaginar, mas dentro daquela casinha quase em ruínas, estava nossa doce Fiorela, pequenina e indefesa, presa em uma gaiola suspensa na cozinha, próxima a um caldeirão borbulhante e fedorento, temendo por sua vida.
Taiamã e seus companheiros avançavam pela floresta rumo à casinha escondida, e ao chegarem bem próximo à casa, pararam em um ponto de onde podiam observar o ambiente ao redor sem serem vistos, abrigados atrás de uma grande pedra cercada por alguns arbustos, na lateral da casa.

Do lado de fora, aquela estranha senhora que mais cedo estava afiando sua faca (como vimos no capítulo anterior) agora estava sentada em um pequeno banco de tábua penteando seus cabelos grisalhos em frente a um pequeno pedaço de espelho pendurado na parede de fora da casa.
De onde estavam Bartimeu e os demais, dava para ver um pedaço da cozinha através da janela aberta. Taiamã fixou o olhar e percebeu algo se movendo lá dentro. Se aproximou por mais alguns metros e quase não se conteve de emoção: Fiorela!!!
Taiamã fez um sinal para Bartimeu e Tufão o seguirem. Foram contornando a casa pé ante pé e, aproveitando que a estranha senhora estava de costas para a porta da cozinha, entraram na casa.
Taiamã rapidamente abriu a porta da gaiola e retirou Fiorela com cuidado. Mas, ao se virar para sair da cozinha, esbarrou em uma bacia de alumínio que estava na beirada da mesa e que caiu fazendo o maior estardalhaço.

_ Mas o que é isso???? – Gritou a velha horripilante – Quem está na minha cozinha???
A velha correu para a porta da cozinha com sua faca afiada em punho. Taiamã estava encurralado. Não ia conseguir chegar a tempo na janela antes que a velha o alcançasse com sua faca. E agora? Qual seria a solução???
Em um ato de extrema bravura, Tufão apareceu por trás da senhora e lhe mordeu o calcanhar com toda a sua força. Bartimeu aproveitou a oportunidade e pulou na cabeça da velha distribuindo bicadas em sua cabeça.
_ Aaaaaaaai!!!! Seu cachorro idiota! Me larga!!! Aaaaai!!! Me soltaaaa!!!!! O que é isso??? Ai, minha cabeça! Socorrro!!!!
A agonia foi tanta que ela deixou a faca cair bem longe dali. Se aproveitando desse deslize, Taiamã, Bartimeu e Fiorela fugiram correndo mata adentro, seguidos por Tufão que chegou instantes depois, logo após deixar a velha atordoada com sua mordida.

De volta ao parque de exposições…
_ Taiamã, você foi um verdadeiro herói – disse Sr. Crispim.
_ Eu agradeço, Sr. Crispim, mas na verdade, foi um trabalho em equipe. Se não fossem meus companheiros aqui, eu não teria conseguido. A velha estava com uma faca na mão, pronta pra me atacar, quando o Tufão a atacou no calcanhar e o Bartimeu na cabeça. Essa equipe é imbatível.
_ Foi mesmo incrível – disse Sr. Crispim – e vocês correram um risco danado. O delegado disse que aquela velha é muito perigosa. Ela fugiu de um hospital psiquiátrico. Ela diz que é uma bruxa muito famosa e adora fazer “poções” com pena de galinhas raras e ela se encantou com as penas da Fiorela, que são castanhas e levemente douradas.
_ Uau! Ainda bem que eu só estou sabendo disso agora. Não sei se eu teria tanta coragem se eu soubesse disso antes!
E dizendo isso, todos caíram na gargalhada.

Enquanto isso, na baia das galinhas….
_ Ai, Bartimeu, nem acredito que estamos aqui! Você não imagina que sufoco eu passei! Senti tanto medo daquela velha louca me fazer mal! Achei que nunca mais eu fosse sair de lá!
_ Oh, minha querida! Eu imagino! Eu sofri muito aqui sem ter notícias suas! Quase enlouqueci. Foi muita sorte nossa poder contar com a ajuda do Taiamã. Não sei se teríamos conseguido sem ele.
_ É verdade. Ele foi o nosso herói. Mas você e o Tufão também foram parte fundamental no meu resgate. Eu fiquei muito emocionada quando vi vocês entrarem naquela cozinha horrorosa. Só de lembrar do que eu vivi, fico arrepiada!!!
_ Não vamos mais pensar nisso, minha doçura! O importante é que ficou tudo bem. Estamos juntos novamente e nada mais poderá nos separar.
Os dois se abraçaram e logo adormeceram, cansados de toda a aventura que haviam vivido naquele longo dia.
Longe dali, no acampamento dos produtores rurais, Sr. Crispim falava ao telefone.
_ Não, acredito! Não! Não pode ser…
Por Bia Borges
