“O jovem não precisa ter todas as respostas sobre o futuro. Precisa encontrar espaço para descobrir suas próprias possibilidades”
Novembro é um mês que carrega expectativas para milhares de estudantes. Para alguns, representa a possibilidade de realizar um sonho e para outros, o início de uma fase cheia de dúvidas, escolhas e incertezas. E enquanto se preparam para o ENEM, muitos jovens também se deparam com uma pergunta que parece simples, mas que provoca muitas emoções: “O que eu quero fazer da minha vida?”.
Talvez você já tenha ouvido essa pergunta em casa, na escola ou em uma conversa com amigos. Talvez já tenha respondido que pretende fazer determinado curso, mesmo sem ter tanta certeza. Talvez tenha respondido essa pergunta até mesmo para agradar os pais. Ou talvez esteja entre aqueles que ainda não sabem qual caminho seguir. E, enquanto alguns parecem ter tudo planejado, você pode estar se perguntando se deveria ter essa resposta também.
Escolher uma profissão, decidir qual curso seguir, pensar em estudar em outra cidade, sair de casa, considerar as condições financeiras da família e imaginar como será a vida depois da escola. São muitas possibilidades e decisões acontecendo ao mesmo tempo. E entre tudo isso: como os estudantes estão se sentido?
E existe algo que nem sempre é falado: nem sempre a dificuldade está em escolher uma profissão, mas sim em lidar com tudo aquilo que essa escolha representa. O medo de decepcionar os pais, a comparação com amigos que já decidiram o que querem fazer, a preocupação em escolher um curso e depois se arrepender ou a sensação de que é preciso acertar de primeira podem transformar esse momento em uma grande fonte de ansiedade.

Alguns estudantes sabem desde cedo o que desejam estudar. Outros mudam de ideia, ficam divididos entre diferentes possibilidades ou simplesmente ainda não descobriram o que gostam de fazer. E isso não significa falta de responsabilidade, interesse ou capacidade. Cada pessoa tem seu próprio tempo de descoberta. É importante compreender que uma escolha profissional não precisa nascer de uma certeza absoluta. Ela pode ser construída a partir de experiências, interesses, conversas, oportunidades e autoconhecimento. Escolher também significa conhecer possibilidades, reconhecer limites e entender que podemos mudar de direção ao longo da vida.
Mas como lidar com tantas expectativas?
A família tem um papel importante nesse processo. Pais e responsáveis desejam, naturalmente, que seus filhos tenham oportunidades e segurança. Entretanto, apoiar não significa escolher por eles. Na tentativa de proteger, alguns adultos podem acabar projetando seus próprios sonhos, medos e expectativas sobre as decisões dos jovens. Às vezes, em vez de perguntar “Você já sabe o que vai fazer?”, pode ser mais importante perguntar: “O que você gostaria de conhecer?”, “Quais são seus interesses?” e “Como podemos pensar juntos sobre as possibilidades?”.
A escola também participa dessa construção. Professores e educadores podem ajudar os estudantes a compreender que o futuro não se resume a uma profissão ou a uma aprovação. É importante oferecer espaço para conversar sobre escolhas, projetos de vida, dúvidas e expectativas, sem transformar a incerteza em motivo de cobrança.
Pela perspectiva da psicologia, esse período envolve aspectos importantes do desenvolvimento, como identidade, autonomia, autoestima e capacidade de tomar decisões. Aprender a lidar com as incertezas, reconhecer os próprios interesses e compreender que nem tudo está sob nosso controle também faz parte do amadurecimento emocional.
E se você ainda não sabe o que quer fazer, respire. Isso não significa que esteja ficando para trás. Você pode ter sonhos, fazer planos, buscar informações, experimentar possibilidades e construir seu caminho aos poucos. Não precisa ter toda a sua vida planejada agora. Precisa ter espaço para se conhecer, fazer escolhas conscientes e entender que seu futuro não está limitado a uma única decisão. O ENEM pode representar uma oportunidade importante, abrir portas e aproximar você de novos projetos. Mas seu resultado não determina sua inteligência, seu potencial ou todas as possibilidades que ainda poderá encontrar.
E, por fim, fica uma reflexão para professores e famílias: as escolhas dos jovens são importantes, seus sonhos merecem ser levados a sério. Eles precisam de adultos que saibam orientar sem impor, apoiar sem pressionar erespeitar o tempo e o processo de construção do futuro de cada um.
E para você, estudante: você não está ficando para trás só porque ainda não descobriu qual caminho deseja seguir.Respeite sua história, reconheça suas capacidades e olhe para si mesmo com respeito, consciência e acolhimento.Você não precisa ter todas as respostas agora. Permita-se descobrir, aprender, mudar de ideia e construir seu próprio caminho.

Evelyn Natiele Paes da Silva
CRP 14/08452-7
Psicóloga Clínica Infantil e Familiar
