Em 2009, ele se preparava para o Enem. Seis anos depois, voltou à capa como professor de Ciências. Hoje, segue construindo sua trajetória na educação em Amambai
Na capa da Gazeta Educação de novembro de 2009, uma turma do 3º ano da Escola Estadual Dr. Fernando Corrêa da Costa se preparava para o Enem. Entre os estudantes estava Luan Carlos Morais Dutra. Aos 17 anos, ele tinha dúvidas sobre o futuro, mas uma vontade já o acompanhava: ser professor e construir sua vida em Amambai, cidade onde nasceu.

Seu primeiro plano era cursar História. Luan se imaginava dando aulas como professores do filme Clube do Imperador e Escritores da Liberdade, e sonhava com a estabilidade de um concurso público. Antes de chegar ao Ensino Médio, ele gosta de lembrar que seu processo de formação na educação básica também se fez em outras duas escolas, Escola Municipal Dr. Rachid Saldanha Derzi (2 anos) e na Escola Estadual Dom Aquino Corrêa (8 anos).
Ao rever a fotografia da capa, Luan reencontrou mais do que a própria imagem. Uma das colegas de turma era sua prima, que depois também cursaria Ciências Biológicas. Os dois chegaram a dividir moradia em Dourados durante a graduação.
Ele se lembra da Gazeta Educação circulando pela escola, das piadas, dos jogos que gostava de procurar no jornal e da curiosidade de encontrar pessoas conhecidas em suas páginas. Alguns professores também levavam a publicação para a sala de aula.
Da História à Biologia
A escolha do curso não aconteceu de uma vez. Além da História, Luan gostava de meio ambiente, de botânica, de física, de teatro e de música. Prestou vestibular para Engenharia Ambiental na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), mas foi chamado primeiro para Ciências Biológicas na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD).
Com o apoio dos pais, mudou-se para Dourados. A moradia foi compartilhada com outros universitários, e as famílias dividiram as despesas. A graduação exigiu adaptação à vida longe de casa e trouxe aulas práticas, estágios, projetos, viagens técnicas e encontros com pessoas de diferentes lugares.
Embora muitos colegas preferissem seguir o bacharelado, Luan tinha certeza de sua escolha pela licenciatura. “Eu tinha um objetivo muito claro: queria ser professor e voltar para Amambai.” Quando veio a convocação para Engenharia Ambiental, a Biologia e a formação docente já o haviam conquistado.
Setembro de 2015: o professor na capa
Seis anos depois da primeira fotografia, Luan voltou à capa da Gazeta Educação. Na edição de setembro de 2015, ele aparecia como professor de Ciências da Escola Estadual Dr. Fernando Corrêa da Costa, a mesma escola onde havia concluído o Ensino Médio.
Na imagem, acompanha uma aluna em uma atividade no quadro. A reportagem destacava a presença de jovens professores na educação e a maneira como Luan buscava aproximar os conteúdos dos estudantes por meio de brincadeiras e de uma linguagem familiar a eles.

Ao longo da docência, ele desenvolveu um carinho especial pelas turmas do 6º ano e pelo ensino de células. Em suas aulas, procurava fazer conexões com o cotidiano e, em alguns momentos, recorria a filmes e animes para dialogar com os alunos. Para Luan, ensinar exige conhecimento e também uma relação verdadeira com os estudantes.
O mestrado e as pessoas que ajudaram no caminho
Depois da graduação, Luan cursou o Mestrado Profissional em Ensino de Ciências na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em Campo Grande. Parte da pesquisa sobre o ensino de células foi realizada com estudantes do 3º ano da Escola Estadual Dom Aquino Corrêa.
O caminho até o mestrado teve uma frustração: ele não foi aprovado na primeira seleção. Tentou novamente, em seleção para vagas remanescentes, e conseguiu ingressar. A experiência lhe mostrou que uma dificuldade não precisa encerrar um projeto.
Luan guarda gratidão pelas pessoas que o ajudaram nessa etapa, especialmente sua orientadora, a professora Lenice, e a colega de graduação e mestrado Terezinha Cabral. Ele também se lembra da família, que sempre valorizou seus estudos. Uma lembrança que guarda com carinho vem de seu falecido avô, que lhe recitava um versinho que nunca esqueceu: “Joãozinho cabeçudo, mas tem belo coração, dedicado nos estudos, sempre sabe sua lição.”
Um novo lugar na educação
Luan tornou-se professor concursado da rede municipal, atuou em diferentes unidades de ensino, mas desde 2017 atuava na Escola Estadual Dom Aquino Corrêa, onde havia passado boa parte da infância como aluno. Em maio de 2026, encerrou sua cedência à escola e retornou ao vínculo no município. Hoje, trabalha na Secretaria Municipal de Educação de Amambai, no setor de Inspeção Escolar.
A mudança trouxe sentimentos difíceis. Na Dom Aquino, ficaram colegas, estudantes, famílias e vínculos construídos ao longo dos anos. Luan também guarda lembranças do projeto de vôlei da professora Márcia Veron: mesmo sem ter sido um entusiasta do esporte na infância, passou a acompanhar os jogos e a torcer pelos alunos nas arquibancadas.
Ao falar das pessoas que marcaram sua formação, ele prefere não escolher um único professor. Lembra-se de educadores que ensinavam com clareza, paciência e carinho, mas faz questão de incluir também quem trabalhava na secretaria, na limpeza e na merenda. Para ele, todos ajudam a construir a vida de uma escola.
Os caminhos que ainda estão por vir
Ao olhar para o estudante da capa de 2009, Luan reconhece sonhos realizados: tornou-se professor, concluiu a universidade e o mestrado, ingressou por concurso na rede pública e permaneceu ligado à educação em Amambai. Também reconhece as mudanças de planos e os momentos em que precisou cuidar da própria saúde e repensar o ritmo de trabalho.
A Gazeta Educação continua fazendo parte de sua história. Hoje, ele acompanha pelo jornal os projetos desenvolvidos por colegas nas escolas da cidade e vê na publicação possibilidades de uso pedagógico.

Para os jovens que agora se preparam para o Enem, como ele fazia naquela fotografia, Luan deixa um conselho nascido da própria experiência: “Vocês não precisam saber tudo sobre o futuro para começar a construí-lo.” Estudar, buscar informações e aproveitar as oportunidades são passos importantes; e mudar de ideia também pode fazer parte do caminho.
Por Patrícia Rocha
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