Três ou quatro centímetros.
Às vezes, é só isso que separa duas maneiras completamente diferentes de reagir ao desconhecido.
Em uma região profunda do cérebro está a amígdala, estrutura responsável por acionar nossos mecanismos de alerta quando percebemos uma ameaça ou algo que ainda não compreendemos. Muito perto dela está o núcleo accumbens, uma área ligada ao desejo, à recompensa e à curiosidade.
Não é curioso pensar que medo e curiosidade habitam praticamente a mesma vizinhança dentro de nós? Talvez seja por isso que, diante de uma novidade, quase sempre fazemos uma escolha invisível: recuar ou nos aproximar.
Você conhece essa sensação. Quando o celular vibra com uma nova mensagem, existe um impulso quase imediato para descobrir o que foi enviado. Quando chega uma encomenda, abrir a caixa faz parte da experiência. E, se você continua lendo esta coluna, há uma boa chance de que a curiosidade tenha vencido o medo de investir alguns minutos em um assunto que ainda não sabia onde iria parar.
Não foi por acaso que comecei falando do cérebro.
Hoje eu quero contar uma história sobre povos que viveram na Europa há milhares de anos e sobre como tradições atravessam séculos, mudam de significado, cruzam oceanos e continuam deixando marcas na cultura de diferentes lugares do mundo.
Porque existe algo ainda mais curioso do que a neurociência: a maneira como nós, seres humanos, reagimos às culturas que ainda não conhecemos.
Imagine uma noite de outubro, há mais de dois mil anos. O inverno se aproximava carregando frio, escassez e incertezas. Naquele tempo, as pessoas compreendiam o mundo principalmente observando a natureza, os ciclos das estações e tudo aquilo que conseguiam experimentar ao seu redor.
Era assim que viviam os povos celtas, nas regiões onde hoje estão a Irlanda, a Escócia e parte do Reino Unido. Nessa época do ano eles celebravam uma data chamada Samhain, que marcava a passagem do fim das colheitas para o início do inverno. As noites ficavam mais longas, os dias mais curtos e a sobrevivência se tornava mais difícil. Como acontecia em praticamente todas as civilizações antigas, esse período era cercado por rituais, simbolismos e histórias sobre a natureza, a vida e a morte. Era a forma como, dentro do conhecimento daquele tempo, aqueles povos davam sentido a um mundo cheio de perguntas que ainda não sabiam responder.
Séculos depois, com a expansão do cristianismo pela Europa, muitas celebrações antigas não desapareceram. Elas foram reinterpretadas e passaram a coexistir com datas do calendário cristão. A história está cheia desses encontros entre tradições. Basta olhar para as festas juninas, que hoje fazem parte da cultura brasileira, mas também carregam costumes ligados às colheitas e aos ciclos da natureza muito anteriores ao cristianismo.
O Halloween faz parte dessa mesma longa história de transformações culturais. A véspera do Dia de Todos os Santos ficou conhecida como All Hallows’ Eve, expressão que, ao longo dos séculos, foi encurtada até dar origem à palavra Halloween.
Percebe o caminho? Uma celebração criada em um contexto completamente diferente do nosso atravessou séculos, encontrou outros povos, ganhou novos significados e chegou até nós com uma aparência muito diferente da sua origem.
Poucas coisas na cultura humana permanecem exatamente iguais ao longo do tempo. A maioria delas muda porque as pessoas mudam, os povos se encontram e as histórias se misturam.
O Halloween que aparece nos filmes e nas séries é bem mais recente. Imigrantes irlandeses e escoceses levaram essas tradições para os Estados Unidos durante os séculos XIX e XX. Lá, diferentes costumes se encontraram e deram origem à celebração que hoje reconhecemos: crianças fantasiadas, casas decoradas, abóboras iluminadas e a brincadeira do trick or treat, o famoso “doces ou travessuras”. Mais do que monstros, fantasias e sustos, a data passou a ser também um momento de convivência entre vizinhos e famílias.
No Brasil, o Halloween chegou principalmente pelo cinema, pela televisão, pela internet e pelas escolas de idiomas. Por isso, muita gente reconhece seus símbolos, mas nem sempre conhece sua trajetória. Talvez seja justamente aí que nasça parte do desconforto: quando uma tradição chega sem contexto, é fácil acreditar que ela significa apenas aquilo que vemos na superfície.
Mas existe um aspecto dessa celebração que sempre me chamou atenção.
Quando uma criança se fantasia de vampiro, múmia, lobisomem, bruxa, saci ou mula sem cabeça, ela não está necessariamente celebrando essas criaturas. Ela está brincando com aquilo que a assusta.
Existe uma cena em Harry Potter de que gosto muito. O professor Lupin ensina seus alunos a enfrentar um bicho-papão, uma criatura que assume a forma do maior medo de cada pessoa. O feitiço para vencê-lo não é destruí-lo. É transformá-lo em algo ridículo. Uma aranha ganha patins. Um monstro perde a pose. O medo vira motivo de riso.
Sempre pensei que o Halloween tivesse um pouco dessa lógica.
Quando um monstro vira fantasia, ele deixa de ocupar o lugar da realidade. A fantasia cria um espaço seguro para olhar de frente para aquilo que nos assusta e dizer: “você não manda em mim”.
Talvez eu pense assim por causa de uma lembrança da minha infância.
Eu tinha muito medo do escuro. Sempre que minha família ia acampar, eu imaginava criaturas escondidas entre as árvores. Na minha cabeça de criança, qualquer sombra podia esconder um bicho esperando por mim.
Meu pai fez algo que nunca esqueci.
Em vez de acender uma lanterna e dizer que eu não precisava ter medo, ele apagou todas elas. Caminhou comigo pela mata iluminada apenas pela lua e começou a me mostrar o que existia ali. A sombra era um galho. O barulho vinha de um inseto. Aquele canto era de uma coruja. Aos poucos, o lugar que parecia habitado por monstros passou a ser habitado por vida.
O escuro continuava escuro. A floresta continuava cheia de sons. Quem mudou fui eu.
Hoje, talvez a maior amante da natureza da família seja justamente aquela menina que morria de medo dela. E isso me faz pensar que muitas histórias da humanidade nasceram exatamente assim: tentando explicar o desconhecido. Mitos, lendas e criaturas fantásticas ajudaram diferentes povos a dar nome ao que ainda não compreendiam. Faz parte da nossa história imaginar monstros onde existe sombra.
Mas também faz parte da nossa história acender uma lanterna.
Conhecer outra cultura não significa abandonar a nossa. Significa fazer com ela o mesmo passeio que meu pai fez comigo naquela mata: olhar mais de perto, descobrir de onde vêm as sombras e perceber que nem tudo o que parece assustador é, de fato, uma ameaça.
Medo e curiosidade moram na mesma rua do cérebro; quem decide qual dos dois abre a porta somos nós. E lembre-se: a curiosidade não apaga quem somos. Ela apenas ilumina caminhos que o medo nunca permitiria percorrer.
Por Ana Luisa Castilho Alves
