Houve um tempo em que o progresso da educação em Amambai não se media em gigabytes, mas sim em litros de álcool e na quantidade de folhas manchadas de um roxo brilhante. Entre os anos de 1980 e 2000, cruzar os corredores das escolas da cidade era render-se a um ritual sensorial que começava muito antes de o professor ditar a matéria.
Tudo começava na sala dos professores ou na secretaria. Ali reinava ela, a máquina manual de duplicar sonhos, textos de apoio e testes: o mimeógrafo. O processo tinha traços de feitiçaria e de artesanato. Primeiro, o professor datilografava ou escrevia à mão livre o “stencil”, pressionando com força a caneta esferográfica contra a matriz para que a cera se rompesse, revelando o traço que ganharia vida. Era preciso cuidado; um erro e lá se ia uma folha de carbono preciosa. Em seguida, o cilindro era alimentado. O cheiro do álcool doméstico invadia o ambiente, impregnando as cortinas, as roupas e a alma de quem operava a manivela.

Girar a manivela era uma arte rítmica. Nem muito rápido, para não rasgar o papel; nem muito lento, para não encharcar a folha. Cada volta era um estalido seco, um compasso que ditava o ritmo da educação daquela época nas salas de aula.
Mas o ápice do ritual acontecia quando as pilhas de folhas entravam na sala de aula. O ajudante do dia, orgulhoso da sua missão confiada pelo professor, distribuía as avaliações ou as tarefas ainda úmidas. O gesto era universal e imediato: antes mesmo de ler a primeira pergunta de matemática ou o texto de português, toda a turma levava a folha ao nariz.
Aquele aroma forte de álcool misturado com a tinta roxa era o perfume do conhecimento. Havia quem ficasse meio ébrio de nostalgia, quem fechasse os olhos para aspirar profundamente e quem simplesmente sorrisse pelo prazer daquela frescura quase gelada nas pontas dos dedos. As mãos dos alunos e dos professores terminavam o dia com manchas azuladas ou arroxeadas, uma espécie de medalha de honra de quem tinha enfrentado a jornada escolar.

Com a viragem do milénio, as fotocopiadoras a laser e as impressoras digitais foram silenciando o girar das manivelas nas secretarias das escolas. O roxo vivo deu lugar ao preto e branco estéril e perfeito; o perfume do álcool foi substituído pelo cheiro a ozono e a plástico aquecido das máquinas modernas.
Hoje, as escolas de Amambai estão conectadas ao mundo por ecrãs táteis e Wi-Fi. É o progresso, inevitável e necessário. Mas para quem estudou ou lecionou naqueles anos finais do século XX, nenhuma tecnologia moderna conseguirá replicar a magia daquela folha úmida, que trazia consigo o esforço manual do mestre e o cheiro inesquecível de uma infância vivida a giz, papel e mimeógrafo.
Albertino Fachin Dias
Historiador
