Do interior de Mato Grosso do Sul para todo o Brasil, a trajetória de um escritor que ultrapassou a marca de um milhão de livros vendidos mostra que grandes histórias também nascem em cidades pequenas e ganham o mundo.
No mês em que se celebra o Dia Nacional do Livro Infantil, a Gazeta Educação destaca a caminhada do autor Robson Rocha, que começou em Amambai, construiu sua relação com a leitura ainda na infância e hoje se consolida como um dos nomes de alcance nacional na literatura voltada ao público infantil e juvenil.
A data, celebrada em 18 de abril, marca o nascimento de Monteiro Lobato, pioneiro da literatura infantil no Brasil, e vai além de uma homenagem: é um convite à valorização da leitura desde os primeiros anos de vida. Mais do que recordar obras clássicas que atravessaram gerações, o momento reforça o papel do livro na formação das crianças, contribuindo para o desenvolvimento da imaginação, da linguagem, do pensamento crítico e da capacidade de compreender o mundo e as emoções.
Mas, no caso de Robson Rocha, a relação com as histórias começou antes mesmo dos livros. Ainda como professor alfabetizador em Amambai, diante da ausência de biblioteca e de materiais de leitura, ele passou a contar histórias para seus alunos e, quando o repertório acabou, começou a inventar. Foi nesse cenário simples, mas fértil em imaginação, que nasceram suas primeiras narrativas, inicialmente de forma oral, dando origem a uma trajetória que mais tarde alcançaria leitores em todo o país.
Mais do que números expressivos, sua trajetória revela o poder da leitura como ferramenta de transformação, construída a partir do afeto, da escuta e do encantamento. Entre memórias, influências e escolhas ao longo do caminho, ele carrega em sua essência as raízes do lugar onde tudo começou e as traduz em histórias que dialogam com crianças, famílias e escolas em diferentes contextos.
Ao longo desta entrevista, ele revisita o início da sua trajetória, fala sobre o papel da literatura na formação de leitores e compartilha reflexões sobre como encantar novas gerações em um mundo cada vez mais marcado pelas telas.

Gazeta Educação – Você já ultrapassou a marca de um milhão de livros vendidos. O que esse número representa para você, especialmente olhando para o começo da sua trajetória?
Robson Rocha – Representa um presente de Deus na minha vida. No início, eu escrevia por hobby. Mas em 2009, quando chegou a 1 milhão, quis saber o que significava este número no Brasil. Para minha surpresa, 50 mil exemplares vendidos já é best-seller. Eu já possuía 12 best-sellers e não sabia. Cada um dos 12 livros da coleção já havia ultrapassado 80 mil exemplares vendidos.
Gazeta Educação – Sua história como escritor começou em Amambai. Que memórias dessa fase ainda permanecem vivas na sua escrita?
Robson Rocha – Tudo começou nas salas de aula da Escola Mitã Rory, onde eu atuava como professor alfabetizador. Na época, não havia biblioteca na escola e nem livros para ler histórias para os alunos. Então, comecei a contar as histórias que conhecia e, quando acabou meu repertório, comecei a inventar histórias para contar para meus alunos.
Minhas primeiras histórias nasceram orais. Em 1991 escrevi minha primeira história, “O Ataque das Cáries”, como parte de um trabalho de uma das disciplinas do magistério. A partir daí, incentivado pela professora Loreni, escrevi mais de 30 histórias infantis, entre elas “O Lápis Mágico”.
Durante 5 anos, entrei em contato com várias editoras nacionais tentando publicar as histórias, mas sem sucesso. Ouvi “não” durante 5 anos. Até que em 1995, a professora Vilma Cruz, então Secretária Municipal de Educação, viabilizou um apoio da Prefeitura Municipal para a publicação de três livros. A gráfica que ganhou a licitação para imprimir os livros era de Belo Horizonte e, por acaso, um dos editores da Editora Fapi teve acesso aos originais das histórias e na oportunidade propôs um contrato para a publicação de 12 livros, que comporiam a Coleção Descobertas.
Na ocasião, muito surpreso e emocionado, não tive condições de tratar sobre o contrato com a editora. Por isso, seu pai, Mário Rocha, que me acompanhava e me apoiava nesta viagem, foi quem tratou dos detalhes do contrato. O lançamento nacional foi em 1997, com tiragem inicial de 120 mil livros.
Gazeta Educação – Hoje você mora em Mato Grosso. Como essa mudança de cenário impactou sua vida e sua produção literária?
Robson Rocha – Assim que me formei pela UEMS, soube de um concurso em Alta Floresta, MT – uma cidade dentro da Floresta Amazônica, a dois mil km de Amambai, e decidi arriscar. Cheguei lá em 1999. Naquele ano, passei no concurso da prefeitura e do estado (ambos em primeiro lugar). Fiz também o seletivo para professor de Leitura e Produção de Texto no curso de biologia da UNEMAT – Universidade do Estado de Mato Grosso, e também passei.
Durante os 5 anos que lá morei, pude conhecer a Floresta Amazônica em oportunidades como aulas de campo e excursões científicas. No convívio com os biólogos, recebi muitas influências, sobretudo na composição dos cenários das minhas histórias. Antes, por desconhecimento, nem sempre os cenários respeitavam integralmente os biomas envolvidos. Isso tudo foi refeito. Lá também escrevi a coleção “Mistérios da Floresta Amazônica” com seis livros.
Gazeta Educação – O que te levou a escrever para o público infantil e juvenil? Houve algum momento ou experiência decisiva nessa escolha?
Robson Rocha – O trabalho como professor alfabetizador e ter feito o curso de Magistério, que funcionava na Escola Fernando, em Amambai; pude conhecer livros da Ruth Rocha, que me encantaram e me influenciaram.
Gazeta Educação – Na sua visão, qual é o papel da literatura infantil na formação das crianças?
Robson Rocha – A literatura infantil não é apenas entretenimento, ela é uma das ferramentas mais poderosas na formação humana.
Na minha visão, o papel da literatura infantil começa no afeto. Quando uma criança escuta ou lê uma história, ela associa aquele momento a acolhimento, atenção e vínculo. Isso cria não só leitores, mas pessoas que entendem o valor das emoções e das relações.
Depois, vem a imaginação. Histórias ampliam o mundo da criança para além daquilo que ela vive. Elas permitem que a criança experimente medos, desafios, alegrias e conquistas de forma segura. Um livro é, ao mesmo tempo, espelho (onde a criança se reconhece) e janela (por onde ela descobre o outro).
A literatura também contribui profundamente para o desenvolvimento emocional. Ao acompanhar personagens, a criança aprende sobre empatia, frustração, coragem, amizade, perda e respeito — temas complexos que, na narrativa, se tornam compreensíveis.
Há ainda o papel cognitivo e linguístico. O contato com histórias enriquece o vocabulário, desenvolve a capacidade de interpretação, estimula o pensamento crítico e fortalece a criatividade.
Mas talvez o mais importante seja isto: a literatura infantil ajuda a formar identidade. Ela diz à criança, de muitas formas, “você pode ser”, “você pode sentir”, “você pode imaginar”. E isso é transformador.
Em resumo, a literatura infantil não forma apenas leitores, forma pessoas mais sensíveis, curiosas, empáticas e conscientes do mundo ao seu redor.
Gazeta Educação – Em um tempo de tantas telas e distrações, como despertar nas crianças o interesse pelos livros e pela leitura?
Robson Rocha – Essa é uma das grandes questões do nosso tempo e, ao contrário do que muitos pensam, não se resolve combatendo as telas, mas criando experiências de leitura que sejam tão vivas quanto elas.
O primeiro ponto é entender que o interesse não nasce da obrigação, mas do encantamento. Crianças não se apaixonam por livros porque “precisam ler”, e sim porque encontram prazer, curiosidade e identificação nas histórias. Por isso, o livro precisa ser apresentado como um convite, não como uma tarefa.
Outro aspecto essencial é o exemplo. Quando a criança vê adultos lendo — por prazer, rindo, se emocionando — ela entende que o livro não é um instrumento escolar, mas uma fonte real de alegria. O hábito se constrói muito mais pelo que se vive do que pelo que se impõe.
Também é importante respeitar o ritmo e os interesses da criança. Nem toda leitura precisa ser “educativa” no sentido tradicional. Quadrinhos, livros ilustrados, histórias engraçadas ou até narrativas mais curtas podem ser portas de entrada poderosas. O importante é criar uma relação positiva com a leitura.
Transformar a leitura em experiência também faz diferença. Ler junto, dar voz aos personagens, criar momentos especiais — como uma leitura antes de dormir — ajuda a associar o livro a afeto e prazer, não a obrigação.
E aqui vai um ponto importante: as telas não precisam ser inimigas. Elas podem ser aliadas, desde que usadas com intenção, como portas de entrada para histórias que depois continuam nos livros.
No fundo, despertar o interesse pela leitura hoje é menos sobre competir com estímulos e mais sobre oferecer algo que as telas não conseguem substituir: presença, imaginação compartilhada e vínculo emocional.
Porque, quando a criança descobre que um livro pode fazê-la sentir, rir, sonhar e se reconhecer, nenhuma distração é páreo para essa descoberta.

Gazeta Educação – Você se lembra do livro ou da história que despertou em você, ainda na infância, o encanto pela leitura?
Robson Rocha – As obras de Monteiro Lobato (por meio do Sítio do Pica-pau amarelo, na televisão). As histórias que meu avô contava quando eu era criança, lá em Minas Gerais. As histórias que meu pai contava ou lia para meus irmãos e eu antes de dormir. Os livros que meus pais compravam para nós na infância. As obras de Ruth Rocha.
Gazeta Educação – Ao longo da sua carreira, qual foi um dos retornos mais marcantes que você recebeu de leitores, professores ou famílias?
Robson Rocha – Para mim todo retorno é marcante. Como cada vez que se recebe um presente.
Gazeta Educação – Como você enxerga a importância da escola, dos professores e também da família na formação de novos leitores?
Robson Rocha – Eu enxergo escola, professores e família como uma espécie de “triângulo essencial” na formação do leitor; quando esses três pontos se conectam, a leitura deixa de ser uma obrigação e passa a ser parte natural da vida da criança.
A escola tem o papel de garantir o acesso. É muitas vezes o primeiro lugar onde a criança encontra livros diversos, autores diferentes, histórias que ampliam seu repertório. Mas mais do que oferecer livros, a escola precisa oferecer experiências de leitura, momentos em que ler não é só responder perguntas, mas imaginar, conversar, sentir.
Os professores, por sua vez, são mediadores fundamentais. Não basta apresentar o livro; é preciso dar vida a ele. Um professor que lê com entusiasmo, que valoriza as interpretações das crianças, que permite perguntas e descobertas, transforma a leitura em algo vivo. Muitas vezes, é um único professor apaixonado que marca para sempre a relação de um aluno com os livros.
Já a família é o lugar do afeto e isso faz toda a diferença. Quando a leitura entra na rotina de casa, mesmo que por poucos minutos, ela ganha um significado emocional profundo. Ler antes de dormir, contar histórias, deixar livros ao alcance das mãos… tudo isso comunica à criança que o livro faz parte da vida, não apenas da escola.
O mais importante é que esses três espaços conversem entre si. Quando a escola valoriza a leitura, o professor media com sensibilidade e a família reforça esse vínculo em casa, a criança cresce entendendo que ler não é uma tarefa isolada, mas uma experiência contínua e significativa.
No fim, formar leitores não é responsabilidade de um só, é um trabalho coletivo, construído no encontro entre acesso, mediação e afeto.
Gazeta Educação – Para as crianças que sonham em escrever suas próprias histórias, que conselho você daria?
Robson Rocha – Eu diria, antes de qualquer coisa: leve esse sonho a sério, ele já é o começo de uma história.
Escrever não nasce da perfeição, nasce da vontade. Então o primeiro conselho é simples: escreva. Mesmo que seja um pedacinho, mesmo que a história ainda não faça muito sentido. Toda história começa meio bagunçada e isso é parte da magia.
Leia muito também. Quem escreve bem, geralmente é alguém que escutou muitas histórias. Preste atenção em como os personagens falam, nos começos, nos finais, nas partes que fazem você rir ou ficar curioso. Ler é como conversar com outros escritores.
Outra coisa importante: não tenha medo da imaginação. Às vezes, a gente acha que a história precisa ser “certa”, mas o melhor da literatura infantil é justamente poder inventar, misturar realidade com fantasia, criar mundos, dar voz a coisas que não falam.
E guarde isso com carinho: suas ideias têm valor. Não compare suas histórias com as dos outros. Cada pessoa escreve de um jeito único, porque cada pessoa vê o mundo de um jeito diferente.
Por fim, escreva com o coração. Pergunte-se: essa história faria alguém sentir alguma coisa? Rir, se emocionar, se reconhecer? Se a resposta for sim, você já está no caminho certo.
Porque, no fundo, escrever histórias não é sobre ser perfeito, é sobre ter coragem de imaginar e generosidade de compartilhar.
Gazeta Educação – Entre todos os livros que você já escreveu, existe um preferido, um “queridinho” especial? O que faz essa obra ocupar um lugar diferente no seu coração?
Robson Rocha – Não. Cada livro é especial por um motivo diferente.
Gazeta Educação – No Dia Nacional do Livro Infantil, que mensagem você gostaria de deixar para as crianças brasileiras e para todos os que acreditam no poder transformador da leitura?
Robson Rocha – Neste Dia Nacional do Livro Infantil, eu gostaria de dizer algo muito simples e muito importante: As histórias são suas.
Para cada criança brasileira: existe um livro esperando por você. Um livro que vai te fazer rir, imaginar, se reconhecer ou até enxergar o mundo de um jeito completamente novo. E, quando você abre esse livro, você não está só lendo, você está viajando, descobrindo, crescendo.
Nunca acredite que livro é coisa difícil ou distante. Livro é encontro. É companhia. É um lugar onde você pode ser quem quiser.
E para todos que acreditam no poder transformador da leitura — famílias, professores, mediadores — fica um convite e também uma responsabilidade bonita: continuem abrindo caminhos. Cada história lida, cada livro compartilhado, cada momento de leitura dividido planta algo que talvez a gente nem veja na hora, mas que cresce dentro da criança para a vida inteira.
A literatura infantil transforma porque toca o que há de mais essencial: a capacidade de imaginar, de sentir e de se colocar no lugar do outro. E uma criança que imagina e sente é uma criança que tem mais ferramentas para construir um mundo melhor.
Que a gente nunca perca isso de vista. Porque quando uma criança abre um livro, o mundo também se abre para ela. E, quem sabe, através dela, o mundo se torne um pouco mais bonito para todos nós.
Gazeta Educação – Sendo um escritor que começou em Amambai e conquistou leitores em todo o Brasil, como é para você carregar essa origem na própria história?
Robson Rocha – Sinto, antes de tudo, uma gratidão profunda — daquelas que a gente carrega no coração como quem guarda um pedaço de casa dentro de si. Amambai não é apenas o lugar onde minha história começou; é o lugar onde eu aprendi a sonhar.
Foi ali, entre salas de aula simples, vozes curiosas de crianças e a ausência de livros que acabou se transformando em presença de imaginação, que nasceram minhas primeiras histórias. Amambai me ensinou que, mesmo quando falta papel, sobra criatividade; que, mesmo quando faltam livros, sobram histórias — esperando apenas alguém que tenha coragem de contá-las.
Carregar essa origem é carregar um afeto muito grande. É lembrar de cada aluno que me ouviu, de cada incentivo recebido, de cada gesto de confiança quando tudo ainda era só começo. É entender que, antes de alcançar leitores pelo Brasil, eu fui profundamente tocado por uma cidade que me acolheu, me formou e acreditou em mim quando eu ainda nem sabia exatamente onde poderia chegar.
Amambai é, para mim, mais do que um ponto de partida — é raiz. E raiz a gente não deixa para trás; a gente leva junto, alimentando tudo o que cresce depois.
Se hoje minhas histórias viajam por tantos lugares, é porque um dia elas aprenderam a dar seus primeiros passos ali. E por isso, onde quer que eu esteja, uma parte de tudo o que escrevo ainda pertence àquela cidade — com carinho, com respeito e com uma eterna sensação de dívida de amor.

