domingo, 1 de março de 2026

Do palco do Fetran aos sonhos que ganharam o mundo: a trajetória das irmãs Cinthya e Lidiane

Em 2013, duas meninas estreavam em um projeto que marcaria suas vidas. No mesmo ano em que o Fetran dava seus primeiros passos em Amambai, sob coordenação do professor Luiz Cláudio Ferreira da Silva, as irmãs Cinthya e Lidiane Martins subiam ao palco como parte do primeiro grupo do projeto na cidade. A Gazeta Educação registrou aquele momento histórico e voltou a reencontrá-las em 2018, novamente em matéria de capa.

Hoje, anos depois, a pergunta que move esta edição é: por onde andam aquelas meninas que aprenderam, ainda na escola pública, que o palco também é lugar de formação cidadã?

A resposta é tão inspiradora quanto suas primeiras apresentações.

Lidiane: da timidez do palco à vocação pela segurança pública

Em 2013, Lidiane era uma aluna do ensino fundamental na Escola Antônio Pinto da Silva. Tímida, sonhadora e cheia de curiosidade, encontrou no teatro um divisor de águas. O Fetran não foi apenas um projeto escolar, foi o espaço onde descobriu sua voz.

O palco ensinou disciplina, responsabilidade, trabalho em equipe e, sobretudo, confiança. Ao longo dos anos, participou ativamente do projeto até o fim do ensino médio. Quando não pôde mais competir, não se afastou: passou a orientar novos alunos e, em 2018, recebeu o convite para colaborar oficialmente com o projeto. Estava, então, do outro lado, formando quem um dia foi como ela.

O interesse pela segurança pública começou ainda naquele período. A admiração pela atuação da Polícia Rodoviária Federal despertou o desejo pela área jurídica. Ingressou no curso de Direito e, durante o estágio na Polícia Civil, teve a certeza da profissão que queria seguir. Ali compreendeu o peso da responsabilidade, a importância da postura e o compromisso social da carreira.

Do palco do Fetran aos sonhos que ganharam o mundo: a trajetória das irmãs Cinthya e Lidiane
Lidiane Martins

A aprovação na faculdade foi um marco pessoal e familiar. Vinda de uma realidade simples, sempre teve na educação o único caminho possível de transformação. “Nada veio fácil”, afirma. Hoje, mais madura e consciente, reconhece que o teatro e a escola foram a base de tudo: da comunicação à postura profissional.

Seu conselho aos estudantes é direto: sonhem, mas trabalhem por isso. Planejamento, disciplina e constância fazem a diferença.

Cinthya: maternidade, recomeços e o sonho da Medicina

Se o palco ensinou confiança a Lidiane, para Cinthya ele revelou potência. Capa da Gazeta Educação em 2013 e novamente em 2018, ela viveu duas fases decisivas registradas pelo jornal: a menina recém-chegada ao 6º ano, cheia de novidades, e a jovem do 3º ano do Ensino Médio, às portas da universidade.

O sonho da Medicina existia desde cedo, inspirado pela mãe, agente de saúde na Aldeia Amambai. Mas parecia distante. A realidade impunha limites, e a falta de referências indígenas na profissão tornava o caminho ainda mais desafiador.

Após concluir o ensino médio, enfrentou uma reviravolta: aprovada em Odontologia, descobriu a gravidez. Tornou-se mãe solo aos 18 anos. Vieram os desafios emocionais, financeiros e o peso da responsabilidade precoce. Passou em concurso público, enfrentou situações de racismo, atravessou a pandemia e precisou amadurecer rapidamente. A trajetória não foi linear, foi feita de recomeços.

Em 2022, chegou a ser aprovada em Medicina na Unirio, mas não realizou a matrícula. O medo e as circunstâncias falaram mais alto. Ainda assim, o sonho permaneceu vivo. Incentivada pela família, especialmente pelo irmão, também estudante de Medicina, decidiu tentar novamente.

Do palco do Fetran aos sonhos que ganharam o mundo: a trajetória das irmãs Cinthya e Lidiane
Cinthya Martins

Quando veio a aprovação na UFFS, o sentimento foi de incredulidade e redenção. Ao lado da filha, hoje com seis anos, celebrou a conquista que simboliza muito mais que um diploma: representa inclusão, resistência e propósito. Atualmente, vive a experiência universitária a quase 700 quilômetros da família, enfrentando desafios financeiros e culturais, mas convicta de que está construindo algo maior que si mesma.

“O sonho é grande, então a caminhada também será”, resume.

Do palco para a vida

Cinthya e Lidiane não apenas participaram do primeiro grupo do Fetran em Amambai. Elas cresceram junto com o projeto. Do palco à universidade, da timidez à liderança, da dúvida à conquista, suas histórias confirmam o que a Gazeta Educação sempre acreditou: a escola é território de transformação.

Anos depois das capas que registraram seus primeiros passos, as duas irmãs seguem escrevendo capítulos que começaram ali, na escola pública, no teatro, na educação.

E a pergunta “Por Onde Anda?” se transforma em outra, ainda mais poderosa: até onde podem chegar os sonhos que começam na sala de aula?

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