Era sábado de manhã, dia de folga de Luiz, um alegre pai de família que tomava tranquilamente seu café com pão na chapa. Aquele era um de seus momentos preferidos na semana: saborear sua comida em paz e sozinho, antes da “molecada” acordar.
E foi assim, em meio a um gole de café e uma mordida no pão, que Sabrina entrou pela porta da cozinha trazendo uma notícia bombástica:
_ Luiz, você vai ter que passar o final de semana sozinho com as crianças.
Luiz quase se engasgou com o pedaço de pão que estava engolindo.
_ Como é que é???
_ É isso que eu te falei. Minha mãe me ligou agora falando que precisa de alguém para ficar com meu pai no hospital e não tem mais ninguém que possa ir. Eles não aceitam acompanhantes idosos e você sabe que meus irmãos moram longe. Então não tem mais ninguém. Eu fico lá com ele e você fica aqui cuidando das crianças.
Luiz estava paralisado.
_ Oi! Você ouviu o que eu disse, Luiz?
_ Anh? Sim! Ouvi, sim…
_ Ótimo, já vou arrumar minhas coisas. Meu pai está me esperando. Não posso deixar ele muito tempo sozinho.
_ Mas o que eu tenho que fazer?
_ Como assim, Luiz??? O que você tem que fazer??? Seja pai, ué! Você vai fazer o que eles precisarem que você faça: vai mandar tomar banho, vai fazer a comida, vai conferir a lição de casa, vai colocar pra dormir, vai tentar mantê-los vivos enquanto eles se atacam como cão e gato. É isso. Bem-vindo ao meu mundo!
_ Mas e se eu não conseguir?
_ Ah, meu amor! Não existe essa opção, não. Você tem que conseguir. E vai conseguir, eu tenho certeza. Eles mesmos vão te ajudando com algumas dicas, na medida do possível. Mas seja firme. Não seja bonzinho demais não, ou eles te dobram! Segunda-feira a gente se encontra.
Sabrina pegou suas coisas e saiu apressada, deixando Luiz num misto de medo e expectativa.
Luiz colocou mais um pouco de café na xícara para beber enquanto tentava pensar em novos planos para aquele final de semana.
_ Paaaai! – uma voz doce o chamou lá do quarto.
_ O que foi, filha?
_ Fiz xixi na cama…
Luiz prontamente se levantou e foi socorrer sua filha, enquanto seu café esfriava esquecido na xícara. Ele tirou os lençóis molhados, colocou no chão ao lado da cama enquanto levava o colchão para fora. Logo mais ele voltaria para colocá-los na máquina de lavar.
_ Vai ligando o chuveiro, Amanda. O papai vai te ajudar com o banho daqui a pouco. Vou só colocar o colchão no sol.
Amanda ligou o chuveiro quentinho e ficou ali sentindo aquela água gostosa escorrer pela sua cabeça enquanto aguardava pelo pai.
Enquanto isso, no quintal, Luiz acabara de deixar o colchão secando encostado na parede, quando sentiu seus chinelos esmagarem uma coisa macia, gosmenta, e sobretudo, fedida.
_ Ah, não!!! Pisei no cocô do Thor!!!! Thor, seu cachorro malcriado! Até hoje não aprendeu a fazer cocô no lugar certo? Mas não é possível uma coisa dessas!!!
Olhando em volta, Luiz percebeu várias outras “bolotinhas” do cocô de Thor espalhadas pela área cimentada do quintal.
“Deixa eu recolher logo isso” – pensou consigo mesmo. E antes de recolher o cocô, deixou seus chinelos no tanque para lavar mais tarde, depois do banho de Amanda.
Depois pegou a pá e começou a recolher os dejetos do cachorro. Já estava quase terminando quando ouviu um grito seguido de um choro, vindo do banheiro:
_ Aaaai, aaaaai, aaaai!!!!!!
Luiz largou tudo como estava e correu para socorrer a filha.
_ O que foi que aconteceu, minha filha???
_ Meu olho!!! Entrou shampoo no meu olho!!!!!
Luiz enxaguou o olho de Amanda e depois passou uma toalha com cuidado.
_ Melhorou, filha?
_ Tá melhorando, pai. Obrigada – disse Amanda ainda choramingando.
_ Mas o que foi que aconteceu? Por que tem esse tanto de shampoo derramado no chão?
_ Sabe o que é, pai? Eu fui pegar o meu shampoo, mas vi que ele acabou. Aí peguei o da mamãe. Eu ia despejar só um pouquinho na minha cabeça, mas a tampa estava mal fechada e eu não vi…. quando eu virei em cima do meu cabelo, caiu aquele tanto de shampoo no meu rosto e eu fiquei desesperada, doeu muito!!!! E a mamãe gosta tanto desse shampoo, e ela sempre fala pra eu usar pouquinho porque ele é muito caro, e agora eu acabei com ele todinho e ela vai ficar muito brava comigo!!! Buaaaaaaaaá – Amanda desatou a chorar novamente.
_ Calma, minha filha, calma! Antes da mamãe voltar a gente passa no supermercado e compra outro shampoo novinho pra ela. E vamos comprar mais do seu também, claro! Vai ficar tudo bem.
Amanda deu aquele abraço apertado – e molhado – no pai. Foram os dois para o quarto dela, onde ele iria ajudá-la a se vestir.
_ Vai se enxugando que eu vou pegar uma roupa na cômoda pra você, filha.
_ Ai, eca!
_ O que foi dessa vez, Amanda?
_ Pisei no lençol molhado de xixi que você deixou aqui no chão.
_ Nossa, já tinha me esquecido completamente! Toma. Veste essa roupa aqui que eu vou lá na lavanderia levar esse lençol.
_ Ao chegar na lavanderia, Luiz se deparou com o chinelo sujo de cocô do cachorro que ele tinha deixado sobre o tanque.
_ Meu Deus! O chinelo. Tenho que lavar logo esse chinelo.
Ao voltar da lavanderia, Luiz encontrou com Lucas, seu filho mais novo, assistindo desenho, sentado no sofá.
_ Papai, cadê a mamãe?
_ Ela teve que sair, meu filho. Ela está no hospital com o vovô Hilário.
_ Ah…. então… faz minha tapioca?
_ Tapioca, Lucas? Eu não sei fazer isso não. Nunca fiz uma tapioca na minha vida!
_ Ah, pai…. por favorzinho… eu te ensino!
_ Você me ensina? Você tem 4 anos e vai me ensinar cozinhar?
_ Eu já vi a mamãe fazer. É só colocar a massa ali na frigideira, esquentar um pouquinho, depois virar, colocar o recheio e fechar. Pronto. É facinho.
_ Facinho, né?
_ É assim mesmo, pai – disse Amanda – pode fazer que eu e o Lucas vamos te ajudar.
_ Luiz pegou a frigideira, aqueceu, colocou a goma de tapioca, espalhou pela frigideira e esperou esquentar.
_ Acho que tá na hora de virar, pai! – disse Lucas.
_ Luiz balançou a frigideira, jogou a tapioca para o alto e aparou com a frigideira para pegar de volta. Mas ele errou a mira. A tapioca girou no ar e se espatifou no chão da cozinha, espalhando seu pó granulado por todos os lados.
Amanda prendeu a respiração por uns segundos e olhou para o pai assustada, sem saber como reagir.
_ Iupiiiiiiiii – gritou Lucas – Tá nevando na cozinha!!!!! Ihuuuullllll!!!!!!
Todos caíram na gargalhada.
_ Peraí, gente, vamos limpar essa bagunça antes que a cozinha fique cheia de “neve pisoteada”. E depois de limpar, que tal fazermos um misto quente na sanduicheira? Acho que dá mais certo. Esse negócio de girar tapioca no ar não é a minha praia, não.
_ Vamos sim, papai. Nós vamos te ajudar a limpar e depois vamos ajudar com o misto também. Eu estou me divertindo muito com você! Você é o melhor pai do mundo!
_ É mesmo, filho? Você também, Amanda?
_ É claro, papai! Estou adorando passar esse dia todo com você. Você é o nosso desastrado favorito!
_ Então tá. Se isso for um elogio, obrigado! – disse Luiz sorrindo e abraçando seus filhos.
_ Mas, pai! – disse Lucas.
_ Oi, filho!
_ A mamãe vai demorar muito?
Por Bia Borges


