Entre quimonos coloridos e olhares atentos, ensino o jiu-jitsu de uma forma única: como ferramenta de inclusão, acolhimento e crescimento pessoal. No ZUZU Tea, cada criança é recebida como única. Os treinos são adaptados ao ritmo e às necessidades de cada uma, começando a partir dos 3 anos, idade em que elas já têm mais autonomia e conseguem seguir instruções. Começamos com atividades isoladas e, com a autorização dos pais, evoluímos para interações em dupla, sempre estimulando a socialização, a empatia e a construção de laços.
A ideia de usar o jiu-jitsu como ferramenta de inclusão veio quando uma amiga me pediu para treinar a filha dela, que é autista, para ensinar noções básicas de defesa pessoal antes dela começar a faculdade. Aceitei o desafio e combinamos que ela treinaria junto comigo. Durante seis meses, fizemos um trabalho básico de jiu-jitsu e defesa pessoal. Foi ali que outros pais começaram a me procurar, querendo que seus filhos também treinassem, mesmo os pequenininhos, de dois ou três anos. Comecei a atender conhecidos, e logo percebi que precisava me capacitar para dar um bom suporte a essas crianças. Então, fiz cursos online, presenciais e atualmente estou no último ano da faculdade de educação física, com pós-graduação finalizada em Educação Especial e Educação Psicomotora.
No ZUZU Tea, além de crianças com autismo, atendo também crianças com TDAH, TOD, altas habilidades e aquelas que não têm nenhuma condição neurodivergente, mas que procuram o jiu-jitsu para aprender disciplina e se desenvolver. Para mim, não basta ser faixa preta e saber a técnica; é fundamental estar preparado para trabalhar com inclusão, estar sempre estudando e buscando conhecimento para realmente ajudar essas crianças a crescerem.
No tatame, mais do que lutar, ensinamos disciplina, respeito, autocontrole, resiliência e autoconfiança — virtudes que ultrapassam o esporte e impactam na vida escolar, familiar e social das crianças. Também trabalhamos habilidades psicomotoras importantes, como coordenação, equilíbrio, foco, tomada de decisão e resolução de problemas, com exercícios variados que incluem até escalada.
Tenho observado resultados incríveis, principalmente com crianças que têm Transtorno do Espectro Autista, TDAH e outras condições. Elas evoluem em disciplina, em obedecer a comandos, ganham força muscular, melhoram o equilíbrio e até a escrita, graças às atividades lúdicas que desenvolvem a motricidade fina.
O maior retorno que recebo dos pais é sobre a melhora na consciência do “Eu” das crianças. Com as frases e propostas de encorajamento que uso, elas vão se sentindo capazes, vencendo seus medos. Eu sempre digo: nada como o poder das palavras para transformar vidas.
Quero deixar claro que o jiu-jitsu não substitui terapias como psicologia, fonoaudiologia ou terapia ocupacional, mas é um complemento terapêutico, assim como a natação, o balé e outros esportes. Por isso, o professor precisa estar muito bem capacitado para fazer esse trabalho de forma responsável e eficaz.
Também me preocupo em adaptar o ambiente para cada criança. Cada uma é única: tem autistas que não se incomodam com som alto e outros que têm muita sensibilidade auditiva, por exemplo. É preciso planejar tudo para que eles se sintam confortáveis e se adaptem ao jiu-jitsu sem estresse.
Para os pais que me acompanham, meu recado é: invistam nos seus filhos, coloquem eles para gastar energia com esportes e atividades que ajudam no desenvolvimento, mas façam isso com consciência. Crianças atípicas também precisam de descanso e momentos de lazer para equilibrar corpo e mente. Aqui, sempre busco que elas estejam se divertindo no tatame, se desestressando e fazendo o que gostam.
Diego Antunes Davalo, professor de artes marciais, formado em Administração, cursando o último ano de Educação Física, pós-graduado em Educação Especial e Psicomotora

