sábado, 29 de novembro de 2025

Jiu-Jitsu inclusivo e desenvolvimento infantil: como a arte marcial pode transformar vidas

Mais do que um esporte, o jiu-jitsu pode ser uma poderosa ferramenta de inclusão, acolhimento e desenvolvimento para crianças de todas as idades e condições. É o que mostra o trabalho do professor e policial penal Diego Antunes Davalo, de 38 anos, à frente do espaço ZUZU Tea – Jiu-Jitsu Inclusivo, inaugurado em fevereiro deste ano e dedicado a atender crianças autistas, com TDAH, TOD, altas habilidades, e também aquelas sem nenhuma condição neurodivergente.

“No ZUZU Tea, cada criança é recebida como única. Os treinos são adaptados ao ritmo e às necessidades individuais, começando a partir dos três anos, quando a criança já tem maior autonomia para seguir instruções. Começamos com atividades isoladas e, com a autorização dos pais, evoluímos para interações em dupla. Esse processo estimula a socialização, a empatia e a construção de laços”, explica Diego.

A trajetória de Diego com o jiu-jitsu inclusivo começou de forma muito especial. “Uma amiga me pediu para treinar defesa pessoal com a filha dela, que é autista e ia começar a faculdade. Aceitei o desafio e treinei junto com ela por seis meses. Depois disso, outros pais começaram a me procurar para seus filhos pequenos. Foi então que percebi a necessidade de me capacitar”, relata o professor, que investiu em cursos e especializações na área para oferecer um trabalho qualificado.

Ele reforça que ser faixa-preta não é suficiente para trabalhar com crianças neurodivergentes. “O professor precisa estar capacitado, entender as particularidades e estar sempre se atualizando. O jiu-jitsu inclusivo não é só uma frase escrita, ele precisa ser vivenciado, com o ambiente e as aulas adaptadas. Por exemplo, algumas crianças têm sensibilidade auditiva e não conseguem lidar com sons altos. É preciso planejar para evitar choques sensoriais e garantir a adaptação de cada aluno”, detalha.

O método adotado no ZUZU Tea vai muito além do tatame. “No jiu-jitsu, as crianças aprendem disciplina, respeito, autocontrole, resiliência e autoconfiança. São virtudes que ultrapassam o esporte e se refletem no desempenho escolar, na vida familiar e na comunidade. Além disso, as atividades estimulam habilidades psicomotoras, como coordenação, equilíbrio, foco, tomada de decisão e resolução de problemas, usando exercícios variados, como escalada”, destaca Diego.

Os resultados, segundo ele, têm sido especialmente expressivos para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), Transtorno Opositivo Desafiador (TOD) e altas habilidades. “Temos observado avanços na disciplina, na capacidade de obedecer comandos, na força muscular, no equilíbrio motor e até na melhora da escrita, através de atividades lúdicas que desenvolvem a motricidade fina”, afirma.

Um dos aspectos mais valorizados pelos pais, conta Diego, é a melhora da consciência do “eu” nas crianças. “Usamos frases e propostas de encorajamento que revalidam os sentimentos que elas têm, reforçando que são capazes de aprender, que conseguem e que vencem seus próprios medos. É incrível ver como o poder das palavras pode transformar vidas”, destaca.

Ele deixa ainda um recado importante aos pais: “Investir nos filhos, colocando-os para gastar energia em esportes como jiu-jitsu, natação, balé, musicoterapia ou ecoterapia é fundamental para o desenvolvimento. Mas é preciso ter equilíbrio, pois crianças atípicas costumam ter uma agenda intensa e também precisam de lazer e descanso. No tatame, busco que elas estejam se divertindo e cuidando do corpo e da mente ao mesmo tempo”, orienta.

O ZUZU Tea, nome dado em homenagem carinhosa à filha de Diego, é hoje um espaço preparado para receber essas crianças com respeito e profissionalismo. “Não é só ter o espaço, é adaptar o ambiente para as necessidades específicas. Cada criança é única e merece um atendimento individualizado para que o jiu-jitsu seja uma experiência positiva e transformadora”, conclui o professor.

A educação, especialmente quando alinhada ao desenvolvimento humano e à inclusão, tem o poder de transformar não apenas indivíduos, mas toda uma comunidade. Iniciativas como o jiu-jitsu inclusivo do ZUZU Tea reforçam a importância de um olhar atento e comprometido de educadores, familiares e sociedade, que juntos constroem ambientes acolhedores e estimulantes para o crescimento integral das crianças. Valorizar essa atenção personalizada é investir em um futuro mais justo, diverso e cheio de possibilidades para todos.

Raquel Fernandes

Jiu-Jitsu inclusivo e desenvolvimento infantil: como a arte marcial pode transformar vidas
Momento de conexão no jiu-jitsu, com o tradicional cumprimento “oss” que simboliza disciplina, humildade e respeito entre professor e aluno. (Fotos Vanessa Bobato)
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